Memória

O LP 321 bufava mais ia

O "cara-chata" ostentou a estrela de três pontas
da Mercedes-Benz no Brasil por uma década.
Simplicidade mecânica e economia eram seus pontos fortes .

Em 1958, a Mercedes-Benz do Brasil reestilizou seu caminhão médio o "torpedo" L 312 e lançou o modelo LP 321, um cara-chata com carroceria maior e capacidade de carga para 10t. O veículo era equipado com motor diesel de seis cilindros em linha e 120 hp e câmbio de 5 marchas.

Havia ainda as opções de chassis curtos, como o LPK, para basculantes, e o cavalo-mecânico LPS. Dessa carroceria avançada ainda foram criados os ônibus Monobloco OM 321, com motor traseiro, e o caminhão cabine-leito LP 331, que tinha cama e uma janela lateral. O chassi, com motor dianteiro, também equipou inúmeros ônibus urbanos e rodoviários de 1958 até o final dos anos 60.
O LPK 321 vinha com chassi encurtado para receber basculantes e havia a opção de tração nas quatro rodas para condições severas

A Mercedes anunciava que o caminhão oferecia "menor consumo de combustível, baixo custo de operação, ampla facilidade de manejo e maior lucro por quilômetro rodado", segundo a publicidade da época. Mas a economia tinha seu preço: muitos proprietários reclamavam da baixa potência do motor e de problemas de superaquecimento, quando muito exigido.

Hoje, são raros os LPs que mantêm a mecânica original. Os motores foram substituídos pelos dos Mercedes 1113, bem mais eficientes e com peças de reposição fáceis de encontrar. É verdade, também, que no começo dos anos 60 os caminhões eram pau-pra-toda-obra e muitas vezes eram requeridos para dar mais do que podiam.

Como outros caminhões daqueles tempos, os LPs não ofereciam conforto. Tinham bancos estreitos, de encosto baixo, que não davam regulagem e eram revestidos com curvim, o que aumentava o calor. E o motor ficava na cabine! Sem assistência hidráulica, os comandos eram pesados. O grande diâmetro do volante ajudava a diminuir os esforços em manobras. Ar-condicionado? Nem pensar. Só enormes ventarolas.
Detalhe do raro LP 331, ano 1962, com sua cabine-leito.
O caminhão pertence a Paulo César Bezerra, de Ibiporã (PR)

O desconforto, entretanto, não impediu que muitas famílias se sustentassem com o trabalho dos LP, como aconteceu com a de Pedro Farinácio Sobrinho, 57 anos, de Ibiporã (PR), proprietário há mais de 25 anos do bruto ano 1965 que ilustra esta reportagem. O filho de Pedro, Silverley, conhecido como Cokinho, conta que ele e seu irmão "foram criados" com o trabalho de seu pai na boléia do LP. "Nós estudamos e somos o que somos hoje graças àquele caminhão", conta. E o MB está revisado, sempre pronto para mais um frete.

Com quase 50 anos, é raro ver um LP 321 nas estradas. O desgaste natural não os faz confiáveis para enfrentar longas distâncias. Mas nas cidades ainda resistem, fazendo pequenos fretes e entregas. Parecem ter vocação para transportar areia, pedra e cimento para depósitos de material de construção...
Propaganda dos caminhões médios Mercedes-Benz publicada na revista Mecânica Popular de dezembro de 1960 apregoava a economia do motor

Diesel nas veias

Foto tirada por este repórter durante uma aventura de carona pelo Brasil em 1980, junto com o amigo Edmilson Michelato. Foi um dia inteiro revezando entre o banco do passageiro e a tampa do motor do LPS 331. O local é Dois Irmãos, perto de Goiatuba (GO).
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