Pneus

A guerra dos preços

Num momento em que qualquer empresa de transporte de carga do Brasil está tentando, com maior ou menor sufoco, cortar custos para conseguir sobreviver, registra-se uma guerra comercial na área dos pneus em geral, o que inclui os pneus de carga. Uma guerra que também tem conotação ecológica, mas no fundo é comercial mesmo.

Três são os atores principais desta guerra: a indústria de pneus novos instalada no Brasil, os importadores de pneus usados da Europa e os importadores de pneus novos de países asiáticos. O fato bem simples é que os pneus usados, depois de remoldados ou recapados, e os pneus novos asiáticos, oriundos principalmente da China, são vendidos no Brasil a preços bem mais baixos que os pneus novos nacionais. Estão, assim, “roubando” mercado do produto nacional. Resultado: os que se sentem prejudicados têm buscado impedir a ação dos adversários. Os
outros se defendem e contra-atacam. A cada momento, essa disputa pode ter novos desdobramentos, tanto no campo legal como no campo econômico. Se a cotação do dólar, que está bem baixa desde o início do ano, voltar a subir, a situação muda da noite para o dia e os pneus importados ficam mais caros. Se o governo baixar uma medida provisória (e já existe projeto de lei nesse sentido no Congresso) proibindo a importação de pneus usados, muda mais ainda.

Nesta reportagem, que tem entrevistas com representantes de todos os
participantes da “guerra dos pneus”, mostramos um panorama dos interesses envolvidos nessa questão. Só não tentamos responder à pergunta “qual é a melhor alternativa para o Brasil?”, porque existem muitos ângulos a serem analisados. Nossa intenção é esclarecer. No máximo, iniciar um debate. Certamente, por sua importância, esse assunto voltará em breve às nossas páginas.

Transportadores querem o menor custo/km

Vamos logo ao que interessa: o preço. Um pneu 295 nacional, novo, custa em geral R$ 1.300/R$ 1.400; um chinês (ou da Índia ou de alguns outros países da Ásia) fica em torno de R$ 950; um usado europeu, que
recebeu recapagem no Brasil, pode sair por R$ 700 a R$ 800.

E será que tem diferença de qualidade? Luiz Marson, gerente de frota da Transportadora Falcão, já testou um Fate argentino, da mesma faixa de preço dos chineses, e não viu diferença dos brasileiros novos. “Ambos rodam 300 mil quilômetros – primeira vida mais duas recapagens –, só que o custo por quilômetro do Fate é mais baixo”, constata. Agora, ele está experimentando os Doble Star chineses, importados pela Randon, mas diz que é cedo para dar um veredito. Quanto aos europeus usados e recapados no Brasil, Marson afirma que, apesar de custarem menos, “não dão o mesmo resultado de custo por quilômetro de um novo”.

Não é só o gerente da Falcão que reduz a discussão da qualidade do pneu a uma questão de custo por quilômetro; do jeito que anda a economia, qualquer pessoa de bom-senso tem que fazer isso. Lá na Coopercarga, de Concórdia (SC), por exemplo, eles chegaram à conclusão que o melhor é importar pneus asiáticos (chineses e coreanos). Compram contêineres fechados para fazer a reposição de pneus de seus 1.400 caminhões. “O câmbio está favorável para nós, em função do baixo valor do dólar", lembra o diretor comercial da Coopecarga, Osni Roman, justificando a escolha. E acrescenta: "A péssima condição das nossas estradas também aumenta o custo com pneus e por isso temos que procurar sempre as alternativas mais baratas". Mesmo assim, não deixam de comprar pneus nacionais sempre de olho no melhor custo-benefício. Só não trabalham com pneus importados ressolados: "Custam menos, mas podem ter fadiga e a gente não sabe".

Quem sabe o que compra, e compra com gosto, nessa área dos importados ressolados, é a TNP Transportadores do Norte do Paraná. Seu presidente, David Silva Amorim, só tem elogios: "Procuramos usar somente os Michelin e Bridgestone importados ressolados e temos conseguido uma quilometragem de 140 mil km em cada vida", informa. O custo é de 55% dos novos nacionais, ele diz. Mas são só para a carreta. "No cavalo, usamos pneus novos ou pneus nacionais ressolados." A TNP testou ainda os chineses Doble Star, da Randon. Também deu certo: na primeira vida, estão rendendo 130 mil km, e custam 70% de um nacional.
Lunardi Venturelli: muito satisfeito com os chineses

Curiosa é a situação relatada por Lunardi Venturelli, da Agrorelli Logística e Transporte, de Sertanópolis (PR), que leva cargas de trigo em grão. "Nossos pneus se gastam muito rápido, porque as viagens são curtas e repetidas. No caminhão que faz, 30 vezes por dia, um percurso de 1,5 km, com quatro curvas à direita, os pneus não rodam nem 10 mil km na primeira vida." Por isso, ele compra pneus "pelo preço". A escolha dele são os chineses.

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