A Companhia Nacional de
Abastecimento (Conab) divulgou estimativas otimistas em
relação à safra 2005/2006. Segundo
a Conab, o Brasil vai colher entre 56,7 e 58,6 milhões
de toneladas de soja, um crescimento de 11 a 14,6% em
relação à colheita anterior. Considerando
outras culturas, o total da colheita de grãos poderá
ficar entre 121,5 e 124,9 milhões de toneladas,
ou seja, de 7 a 10% a mais que na safra passada. Mas,
entre os produtores e os transportadores, o céu
não parece tão azul assim.
"Minhas expectativas
são bastante cinzentas, já que na época
do plantio o produtor estava muito descapitalizado",
diz Cláudio Adamucho, o presidente do G10, de Maringá
(PR). "A safra passada quebrou e o câmbio havia
caído. O resultado foi a redução
da área plantada e da tecnologia aplicada na lavoura,
o que deve refletir na produtividade. Resta confiar no
clima", completa.
O diretor-geral da Associação
Nacional dos Exportadores de Cereais (ANEC), Sérgio
Teixeira Mendes, também está pessimista.
"O cenário para o ano que vem é muito
pior em função da política de juros
que mantém o câmbio baixo. Na Argentina,
o dólar está a 2,90 (pesos) e aqui a 2,20
(reais)", reclamou. Mendes lembra que, para a safra
2004/2005, os produtores compraram insumos com o dólar
a R$ 3,40 e venderam a colheita com o dólar a R$
2,80. "Este ano, eles compraram insumos com o dólar
a R$ 2,50 e vão vender a R$ 2,20", lamenta.
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Nilson Hanke Camargo,
da FAEP, do Paraná: Estado espera colher
11 milhões de toneladas de soja |
DE PÉSSIMA A...
- Nilson Hanke Camargo, assessor do departamento técnico-econômico
da Federação da Agricultura do Paraná
(FAEP), diz que o Estado tem 5% a menos de área
plantada. Ele acredita que, apesar disso e da redução
do uso de insumos na lavoura, haverá um aumento
da produtividade no Paraná, pelo simples fato de
que a colheita anterior foi "péssima".
"No ano passado, a expectativa era colher 11 milhões
de toneladas no estado, mas, com a seca, o resultado não
passou de 9,5 milhões. No ano que vem, se o tempo
ajudar, chegaremos ao patamar da previsão anterior,
ou seja, 11 milhões de toneladas", explica.
A área plantada
com a soja, segundo a Conab, diminuiu de 4,8 a 7,8%, dependendo
do estado, e ficou praticamente igual à utilizada
na safra de 2003/04. A soja está sendo substituída
pelo milho no Sul. O milho oferece melhor perspectiva
de preços no primeiro semestre de 2006, segundo
a companhia.
O diretor da ANEC calcula
a redução de área plantada no Mato
Grosso em 10%. "Com Mato Grosso reduzindo a fronteira
agrícola, estamos dizendo aos Estados Unidos que
deixamos de concorrer pelo primeiro lugar na produção
de soja e vamos encorajá-los a até incrementar
sua política de subsídio", enfatiza.
Ele acredita que a produção
possa mesmo chegar a 59 milhões de toneladas em
2006. Mas diz que isso vai apenas "camuflar"
a situação. "Depois de dois anos seguidos
de quebra de safra, você poderá ter a impressão
de melhora, mas não será real." Para
ele, se o câmbio se mantiver estável em 2006,
"será possível ver uma luz no fim do
túnel para 2007".
ESPERANÇA -
Diretor-executivo da Associação dos Transportadores
de Cargas do Mato Grosso (ATC), entidade que agrega 90
empresas, Miguel Antônio Mendes é um solitário
otimista. Além de considerar que as previsões
da Conab representam "boas perspectivas", ele
aposta num outro fator que, em sua opinião, irá
favorecer o transporte de grãos. Sua tese é
que muitos embarcadores, pelo menos no Mato Grosso, investiram
em caminhões nos últimos anos para fazer
o transporte de carga própria, por conta das promessas
de crescimento da produção que não
se confirmaram. Após terem "quebrado a cara",
esses embarcadores estariam se desfazendo dos veículos.
"O fato de eles estarem
saindo do mercado já é uma grande ajuda.
Todo o mundo sabe que o transporte de carga própria
é que prostitui o mercado. Esse pessoal sempre
faz o frete de volta pelo custo do óleo diesel.
Sem eles, o frete vai subir", acredita. Ele também
disse que no Mato Grosso tem chovido na quantidade certa
e no momento certo, o que dá esperança de
boa produtividade.
Cláudio Adamucho
discorda de Mendes quanto à saída dos embarcadores
do negócio. "Como vender os caminhões
se não há ninguém para comprar?"
Ele lembra que não foram só os embarcadores
que se empolgaram com as promessas não confirmadas
de aumento da produção. "O transportador
de grãos acreditou numa safra 2005 de 135 milhões
de toneladas. Não aconteceu. No ano que vem, talvez
chegue aos 113 milhões de toneladas. Comprou-se
muito caminhão e vai levar anos para esse investimento
ser diluído. O transportador do agronegócio
não está conseguindo honrar seus compromissos.
E o frete no ano que vem vai estar lá embaixo",
acredita.
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