Custos
É duro carregar o preço do diesel nas costas

 

Nos últimos anos, subiu muito a parte do combustível dentro dos custos do transporte. Em algumas distâncias, o diesel representa mais da metade das despesas. Esta reportagem explica por que o diesel subiu tanto e mostra que, se o governo quisesse, ele podia custar menos.

 

Nelson Bortolin

O óleo diesel, que na maioria das operações de transporte de cargas é o item mais pesado da planilha de custos, conseguiu ficar mais pesado ainda, e tornou-se o principal motivo de reclamação dos transportadores.

Com um preço na bomba que, segundo a Agência Nacional de Petróleo, pode ir de R$ 1,842 (Ipatinga – MG) a impressionantes R$ 2,562 (Cruzeiro do Sul – AC), a participação do diesel nos custos do transporte aumentou de uma média de 30% para 50% em quatro anos, segundo o presidente da Coopercarga, de Concórdia (SC), Dagnor Schneider. “E com o mercado desaquecido, não pudemos repassar para o frete”, alega. A cooperativa começou a acompanhar com mais cuidado as planilhas dos associados em 2002.
Para se ter uma idéia de como o diesel é caro no Brasil, basta dizer que na Argentina seu preço está entre R$ 1,07 e R4 1,22 o litro. “Se esse fosse o preço aqui, estaríamos no paraíso”, afirma Schneider.
Só no ano passado, entre abril e dezembro, o preço do diesel subiu 12,06%, segundo a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), muito mais que a inflação do ano inteiro, que não passou de 4,5%. A alta carga de impostos sobre os derivados de petróleo, as diferenças regionais de preços e a política de preços da Petrobras também são apontados como causadores de dificuldades para a atividade do transporte.

ALTO IMPACTO - “Este ano já tivemos operações em que o custo do diesel levou 56% do preço pago pelo cliente. Na média, entre cargas frigoríficas, bitrens graneleiros, sider rebaixada e porta-container, o impacto está em 42,32% em 2006. Em 2002, era 30,64%”, afirma Dagnor Schneider. Para ele, o governo federal e a Petrobrás deveriam “se colocar na posição do transportador”. “Será que a Petrobras precisa manter o preço do diesel neste patamar? Tudo bem que o barril de petróleo é cotado em dólar, mas antes tínhamos um dólar a R$ 4 e hoje é R$ 2,13.”

O gerente executivo da Associação dos Transportadores de Cargas (ATC), de Rondonópolis (MT), Miguel Antonio Mendes, dá números parecidos com os da Coopercarga. “Até 2002, a participação do diesel no custo do transporte variava de 30% a 35%. “Hoje, para um bitrem, no Mato Grosso, o diesel pode levar 60% do frete.”
O presidente do Sindicato das Empresas de Transporte do Paraná (Setcepar), Aldo Fernando Klein Nunes, concorda que houve um aumento expressivo da participação do diesel no custo do transporte de cargas, mas dá números diferentes: hoje, 30 a 40%, “dependendo do tipo do transporte e da distância”; anos atrás, 20 a 25%”. Nunes reclama que a carga tributária que incide sobre os combustíveis é muito grande e que os governantes são insensíveis quanto à redução desses tributos no óleo diesel.

A Fipe estuda os custos do transporte desde julho de 2000. De lá para cá, segundo seus cálculos, a participação do diesel no custo das cargas fracionadas subiu de 7,98% para 10,98% para veículos que percorrem 800 km/mês; se o veículo percorre 6.000 km/mês, o aumento foi de 17,97% para 23,03% no mesmo período. São poucas as situações em que o dispêndio com combustível não representa a maior despesa da viagem – como na entrega de uma carga fracionada a 2.400 km de distância (16,76% de combustível e 26,76% de salários e encargos).

Mas o diesel pesa mais para o transportador que leva carga lotação. Nessa modalidade, em 2004, quando a Fipe começou a fazer os cálculos, o diesel correspondia a 32,17% do total de custos do transporte para veículos que percorrem 6.000 km/mês, enquanto hoje esse índice chega a 37,69% (veja tabela).

A diferença de índices apontados pela Fipe e pelos transportadores é explicada pelo assessor de técnico da NTC&Logística, Neuto Gonçalves dos Reis: “A Fipe inclui em seus cálculos uma série de custos contábeis, como depreciação do veículo e despesas administrativas, o que faz a participação do combustível diminuir. Diante da crise do setor de transporte, com os fretes baixíssimos, os transportadores nem incluem esse tipo de despesa para calcular seus custos”, argumenta.

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