Excesso de Peso
‘Vanderléia’ entra na parada

Resolução do Contran aumenta de 45t para 57t o PBTC e transforma as carretas de três eixos distanciados – chamadas vanderléias – em concorrentes dos bitrens na capacidade de carga, com a intenção de reforçar a idéia de que o peso dos veículos de carga deve ser medido por eixo e não pelo peso bruto total. Entenda, nesta reportagem, a “revolução” que essa medida pode causar.


Nelson Bortolin, Dilene Antonucci e Chico Amaro


A extensa reportagem sobre o problema do excesso de peso com que muitos veículos de carga trafegam no Brasil, publicada em nossa edição 124, não esgotou o assunto.

Recebemos um valoroso cumprimento do diretor executivo da Fetranspar – Federação das Empresas de Transporte de Cargas do Paraná, coronel Sérgio Malucelli, que considerou a reportagem “completa, científica e didaticamente perfeita”. Naquele texto (veja a íntegra), tratamos de assuntos relevantes como a fragilidade da legislação do setor, a falta de fiscalização do poder público e os grandes prejuízos que o excesso de peso dos caminhões causa ao asfalto e aos próprios transportadores (no equilíbrio econômico da sua operação).

Mas eis que surge uma novidade nessa discussão. Uma novidade que estava, digamos, “escondida” por trás do texto indecifrável de uma resolução do Conselho Nacional de Trânsito – Contran. A resolução 184, de outubro de 2005, ao mesmo tempo em que liberou os bitrens de obter autorizações especiais de trânsito (AETs) para trafegar, também fixou em 57 t o PBTC, ou seja, o peso bruto total dos veículos rodoviários de carga, que antes era de 45 t. Em conseqüência, abriu-se a possibilidade de configurações como as chamadas vanderléias (carretas com três eixos distanciados) poderem tracionar até 53 t.

Assim – e aqui é que está o importante –, uma vanderléia de 53 t de PBTC passou a transportar 36 t de carga, competindo com o bitrem, que precisa de duas carretas e quatro eixos para levar 38 t. Essa é a novidade que praticamente pegou de surpresa os próprios fabricantes de implementos rodoviários, segundo confessa o presidente da entidade de classe do setor, a ANFIR, Lauro Pastre. “Aquilo não foi uma resolução, foi uma revolução”, afirma Pastre.

SÓ LÍQUIDOS – Já existem vanderléias trafegando pelo Brasil há cerca de 15 anos, mas são poucas e usadas quase exclusivamente no transporte de líquidos, no Estado de São Paulo. Agora, provavelmente, vão ficar mais populares. Uma vanderléia custa menos que um bitrem, tem menos pneus, paga menos pedágio, exige menos manutenção, embora não sirva para todos os trabalhos que o bitrem faz (leia mais). “De qualquer forma, é uma nova possibilidade que será testada pelos transportadores e veremos qual é o espaço que poderá conquistar”, diz o presidente da ANFIR.

O novo diretor do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), Alfredo Peres da Silva, em entrevista exclusiva à Carga Pesada, faz questão de esclarecer que o objetivo da medida está vinculado ao esforço para combater o excesso de peso dos veículos de carga. “Essa idéia já vinha sendo discutida desde 2000. A intenção é acabar com o conceito de peso bruto total e enfatizar aquilo que já está na legislação: o que importa é o controle de peso transmitido por eixo”, informa.

Peres diz que a proposta foi discutida num grupo de trabalho com representantes do DNIT, Denatran, NTC, CNT, dos autônomos, da Anfavea e ANFIR. E acrescenta que os órgãos de trânsito voltarão a multar embarcadores por excesso de peso por eixo.

Questionado se uma configuração como a Vanderléia, com seus três eixos isolados e podendo carregar até 53 toneladas, não seria mais prejudicial ao pavimento (há controvérsias a esse respeito, leia mais), ele responde que a opinião dos fabricantes de implementos é o contrário. E completa: “Este é um problema técnico e deverá ser discutido. Depois de tantas marchas e contramarchas, não temos direito de errar novamente”.

PROPOSTAS – Segundo o diretor do Denatran, a resolução não foi perfeita porque deixou algumas dúvidas a respeito, por exemplo, do comprimento máximo de certas configurações. “Existe um grupo de trabalho no Ministério dos Transportes – com representantes do DNIT, transportadores, fabricantes de veículos e implementos -, ocupado em fazer propostas para eliminar pontos obscuros da resolução”. Tais propostas, segundo ele, deverão ser encaminhadas à câmara temática do Contran ainda este mês, e a definição deverá ser dada até o final do ano.

Sobre a sistemática oposição dos autônomos ao controle do excesso de carga por eixo (eles querem que a conta seja pelo PBT, como se viu na edição passada e é reafirmado no texto a seguir), Peres diz que isso será resolvido quando os órgãos de trânsito voltarem a multar os embarcadores por essa infração. “O que penaliza o transportador autônomo é que, embora não sofra a multa, ele fica responsável pela arrumação da carga. Mas quando voltar a ser aplicada a multa por excesso de peso por eixo para o embarcador, esse problema deixará de existir.”

“O mercado é que vai escolher entre o bitrem e a vanderléia”

E se for pior para o pavimento?

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