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Só R$ 0,004 por km rodado
Até os buracos das nossas estradas sabem que o máximo de retorno que se pode obter no investimento num pneu só é conseguido depois que ele for recapado uma ou mais vezes. Mas quantos transportadores tomam os cuidados necessários com a carcaça para ela poder receber as recapagens? Quantos têm consciência do tanto de dinheiro que perdem por causa de uma distração ou de uma negligência ocasional, ou de muitas distrações e da negligência permanente? Quantos já fizeram a conta, na ponta do lápis, do que se ganha zelando pelos pneus? Nesta reportagem, nós procuramos dar uma idéia do que representa esse ganho – e, por tabela, de quanto se perde agindo de outra forma. E ainda: mostramos que as recapagens estão cada vez mais eficientes, graças ao avanço da tecnologia, e que as revendas de recapagens oferecem cada vez mais facilidades e apoio para quem quer cuidar dos pneus. Em resumo: nunca foi tão fácil economizar em pneus. Mas quantos fazem a “lição de casa”?
Chico Amaro
Vamos direto aos números de quem leva a sério esse assunto de esticar a vida dos pneus. Como a Transportadora Sopro Divino, de Araras (SP), por exemplo. É lá que o custo por pneu é de apenas R$ 0,004 por quilômetro rodado – um valor que não dá nem para pronunciar, informado pelo gerente de manutenção Ricardo Donizete Silvino.
Com 4.100 pneus rodando todo o dia em 420 caminhões, Ricardo tem quem colete e lhe envie informações sobre pneus nas filiais de todo o Brasil. Não dá pra descuidar: os pneus são o terceiro maior custo da transportadora (como, em geral, ocorre com todas), atrás do diesel e da manutenção dos caminhões.
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Ricardo Donizete Silvino: rigor na coleta de informações sobre o desempenho dos pneus |
Ele conta com um programa de computador específico para ajudá-lo a administrar esse insumo, fornecido pela recapadora. E assim chega à conclusão de que sua empresa gasta apenas aquele valor praticamente simbólico do título. Não é tão simbólico, mas é bem baixo. Significa R$ 0,04 a cada 10 km. Ou R$ 0,40 a cada 100 km, R$ 4,00 a cada 1.000 km, R$ 40 a cada 10.000. Ou seja, R$ 400 a cada 100.000 km.
CENTAVINHO - Isso nos permite fazer uma comparação bastante sugestiva. Quanto custa um pneuzão 295 dos mais caros que andam aí pelo mercado? Digamos que uns R$ 1.200, pra deixar com um desconto. Quanto é que esse pneu vai rodar? Na Sopro Divino, um pneu novo, no eixo direcional, roda uns 120.000 ou 130.000 km. Ou seja, seu custo por quilômetro será de R$ 0,01 – só um centavinho. Mas nós vimos que o custo por pneu da empresa é de R$ 0,004 por km, ou seja, 40% do centavinho. É o mesmo que dizer que um pneu de R$ 1.200 roda 300.000 km. Impossível? Difícil na prática, mas totalmente viável na matemática.
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Marcelo Amorim, da Pirelli: recapagem reduz muito o custo por km |
Uma parte grande do segredo está na possibilidade da reconstrução dos pneus, como ilustrou o executivo Marcelo Amorim, da Pirelli, gerente Novateck para a América Latina, ouvido pela Carga Pesada: “Um pneu de R$ 1.000 que roda 100.000 km custou R$ 10 para cada 1.000 km. Se você investe R$ 300 na reforma e roda mais 100.000, já são 200.000 km com R$ 1.300. Ou seja, o custo por 1.000 km caiu de R$ 10 para R$ 6,5 – 35% a menos. Se o pneu tiver outra recapagem, esse valor pode baixar mais ainda...”
Na Sopro Divino, baixa até os R$ 0,004 por km, com tudo incluído: preço do pneu novo, das recapagens e dos demais gastos com a manutenção dos pneus (como alinhamento e balanceamento).
LADRÕES - Para se obter um resultado desses, é importante que o preço do pneu novo seja atraente. “Nós compramos Michelin e Bridgestone direto de fábrica”, informa Ricardo. Mas a grande diferença está em “fazer a lição de casa”, como ele diz, ou seja, evitar a ação dos “ladrões de quilometragem”, expressão que Ricardo aprendeu com a Bandag, recapadora da Sopro Divino que está a 32 anos no mercado. Ele cita 3 “ladrões de quilometragem”:
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uma carreta desalinhada consome 25% mais pneus; |
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a falta de pressão representa 20% de perda de vida; |
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a velocidade ideal para obter o máximo proveito de um pneu é 80 km/h – rodando a 110 km/h, lá se vão, rapidinho, mais 30% do pneu. |
Só aí já se desperdiçou 75% da vida do pneu... E ainda tem o excesso de carga, muito comum nos graneleiros.
O pior é que, se esses “ladrões de quilometragem” estiverem agindo, a chance de que a carcaça se mantenha saudável para a recapagem também diminui. E, sem recapagem, o grosso da economia vai embora.
Será que, entre os autônomos, existe quem leve as contas com pneus tão na ponta do lápis como o pessoal da Sopro Divino? Se existe, nós não encontramos. Mas tem gente que, mesmo sem anotar números precisos, leva a sério a manutenção preventiva dos pneus e não tem do que se queixar.
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José Antônio dos Santos: cuidadoso,
teve pneus que rodaram mais de 500.000 km |
SEM QUEIXAS - José Antônio dos Santos, membro do GA (Grupo de Astorga), residente em Cambé (PR), transporta produtos agrícolas num Ford Cargo comprado novo em 2005 e anda sempre bem calçado. Desde 2002 vem trocando caminhão novo por caminhão novo e já teve pneus que rodaram mais de 500 mil km com duas recapagens. Não tem queixas dos custos, transporta principalmente para dois clientes, não reclama do frete, tem rastreador no caminhão e vive feliz. “Procuro ir para onde os bitrens não vão”, explica.
Seu colega Pedro Ademir Davanso, de Kaloré (PR), dá um pouco mais de sopa pro azar. Num Scania 83 do cunhado, que ele dirige (e faz a manutenção) e no qual transporta grãos, diz que já mudou de marca de pneu porque rachava o talão, mas o outro também rachou. “Não sei qual é o problema. Me disseram que pode ser porque eu ando em estrada de chão, pesado demais...”, afirma em voz baixa e com ar de quem não liga muito pra isso. Pedro sabe que uns quilos a mais (duas ou três toneladas, na verdade) de carga estragam os pneus, mas justifica: “Eu venho devagarinho... E se a carga for mais leve, a gente acaba correndo mais”. Tudo como se fosse coisa do destino e ele não pudesse fazer nada. Outro dia, um pneu que tinha acabado de ser recapado estourou, porque o freio esquentou demais, a roda travou e Pedro não viu. Um descuido que deu um prejuízo de uns R$ 300 em quilometragem. Falando em dinheiro, Pedro reclama dos ganhos. Para ele, “de caminhão não sobra nada não”.
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Pedro Davanso diz que sabe tudo o que deveria fazer, mas pena com prejuízos |
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