Saúde em risco

 

O medo como companheiro

É cada vez maior o número de caminhoneiros que passam momentos de terror nas mãos de assaltantes. São traumas que não se esquecem – e causam grandes prejuízos à saúde. Mas os caminhoneiros não estão acostumados a associar o abalo emocional provocado por essas situações com os problemas orgânicos que podem sentir depois, e assim sofrem mais que o necessário. Pode ser necessário procurar um médico. E até afastar-se da estrada para tratamento. Qualquer caminhoneiro – inclusive o autônomo – tem direito a receber auxílio-doença da Previdência, se não estiver em condições de trabalhar.
 

 

Nelson Bortolin

Quando está dirigindo, Pipoca não pode ver um motoqueiro se aproximar por trás que já se apavora: pode ser um bandido disposto a assaltá-lo. Este caminhoneiro paulistano, 45 anos, não relaxa mais ao volante. “Luto todos os dias para esquecer aquele dia”, diz ele, referindo-se a uma terça-feira de agosto do ano passado em que foi assaltado em São Caetano do Sul (SP) e ficou quatro horas com uma arma apontada para a cabeça.

O paranaense Bigode, 53 anos, passou apuro pior: 23 horas amarrado, num canavial, vigiado por dois homens armados e com capuzes. Nesse período, teve pensamentos horríveis. Imaginou seu velório em detalhes, “viu” a mãe chorando ao lado do caixão...  “A gente fica transpassado. Eu ouvia um barulho de ganso perto de mim, mas depois vi que, num canavial, não podia ser um ganso.” Nunca soube se o barulho era real. Passados 16 anos, o caso continua bem vivo em sua memória.

Essas histórias são verdadeiras. Os dois caminhoneiros, que preferem não ter seus nomes publicados, fazem parte de uma estatística dramática. É provável que, de 2000 a 2005, 51.000 caminhoneiros tenham sofrido algum tipo de violência, sendo que 118 foram mortos. Só em 2005, cerca de 7.900, ou 21 motoristas por dia, podem ter tido uma arma apontada para a cabeça. Dez foram mortos.

São números estimados pelo coronel Paulo Roberto de Souza, assessor de segurança da NTC&Logística, que calcula em 75% a porcentagem de casos de roubo de carga nos quais caminhoneiros são retirados da boléia por ladrões e detidos até o fim da ocorrência. A polícia não tem estatísticas.

SEM EFETIVO – Embora os roubos de cargas venham caindo desde 2003, a situação é grave. Os caminhoneiros se sentem abandonados à própria sorte nas estradas. E com razão: em entrevista, o chefe-substituto da Divisão de Combate ao Crime da Polícia Rodoviária Federal (PRF), inspetor Regisvan Soares, informa que o efetivo da corporação é o mesmo de 30 anos atrás.

Mas estar exposto à violência não é “privilégio” dos caminhoneiros. Bancários, por exemplo, também se arriscam, principalmente nos grandes centros. A diferença é que eles, ao contrário dos estradeiros, estão organizados em sindicatos e recebem apoio e orientação para reduzir os prejuízos à saúde que resultam da violência.

Na base do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, foram emitidas no ano passado 82 comunicações de acidente de trabalho de bancários que estiveram sob a mira de revólveres. Muitos estiveram afastados do trabalho por algum tempo, para tratar de uma doença que os psiquiatras e psicólogos chamam de síndrome do estresse pós-traumático.

Entre os caminhoneiros, não se encontra quem tenha ouvido falar dessa síndrome, e muito menos que tem direito a se afastar do trabalho para se tratar. Distúrbios gastro­intestinais, tontura e dor no peito são alguns sintomasda síndrome. O pior, no entanto, é a repetição constante na mente das cenas do assalto, segundo as vítimas. Imagens e sensações são revividas a qualquer hora sem que se possa controlar.

DE UMA VEZ – Uma certa mania de perseguição também é comum, segundo a psicóloga Débora Miriam Raab Glina, da Universidade de São Paulo. O caminhoneiro Pipoca, por exemplo, que foi abordado por motoqueiros, não pode mais ver uma moto que pensa nos bandidos.

Débora Glina, psicóloga da USP: empresas devem oferecer apoio aos empregados

A professora afirma que nem todos sofrem com a síndrome, mas a maioria das vítimas de violência apresenta os sintomas. Ela atende esses pacientes no Serviço de Saúde Ocupacional do Hospital de Clínicas de São Paulo. “Algumas pessoas conseguem lidar bem com a situação; para outras é mais difícil”, explica.

A duração da síndrome também varia. Uns podem se recuperar após seis meses, outros ficam anos sofrendo. “Às vezes, o paciente precisa passar pela psiquiatria e tomar medicação.”

Para outra profissional de saúde consultada pela Carga Pesada, a médica Maria Maeno, da Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina no Trabalho (Fundacentro), ligada ao Ministério do Trabalho, as doenças psíquicas são vistas com certo preconceito, mas essa situação deve ser enfrentada por quem está sofrendo. “Quem faz terapia ou tratamento psiquiátrico é visto por muita gente como um louco ou uma pessoa que ‘não bate bem’, mas quem precisa não deve se deixar intimidar por causa disso.”

Mesmo que esteja se sentindo bem, a professora Débora acha que o profissional que ficou sob o domínio de bandidos deve se afastar do trabalho por pelo menos um mês. Se apresentar os sintomas, precisa de ajuda profissional. “As empresas devem fazer convênios e oferecer acompanhamento psicológico aos seus empregados”, aconselha.
No caso dos autônomos que pagam INSS, a psicóloga lembra que eles têm direito a auxílio-doença e podem se afastar do trabalho temporariamente. Ela aconselha os profissionais a buscarem os Centros de Referência de Saúde do Trabalhador existentes no País que, em tese, devem dar atendimento gratuito. Na falta desses centros, buscar ajuda nos postos de saúde municipais.

Em São Paulo, além do Serviço de Saúde Ocupacional do HC, existem cinco centros de referência, nas regiões norte (Freguesia do Ó), oeste (Lapa), leste (Mooca), sul (Santo Amaro) e centro (Sé).

 
 

 
 

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