Na Estrada

 

O que os caminhoneiros querem dos postos

Atualmente, em certas estradas, se encontram postos de combustíveis modernos, amplos, que oferecem muitos serviços, mas nem por isso os caminhoneiros estão satisfeitos, porque tanto conforto pode custar um preço que a maioria não pode pagar. Além disso, a maior parte dos postos está que nem o perfil da frota dos autônomos: longe da condição ideal. Esta reportagem trata das mudanças ocorridas na malha de postos rodoviários do Brasil nos últimos anos. E mostra o que as grandes companhias distribuidoras de combustíveis fazem para atrair os autônomos – eles representam cada vez mais faturamento, comparando com os caminhões de frota

Chico Amaro

As coisas andam mudadas nos postos de combustíveis das estradas. Nos últimos anos, surgiram nas principais rodovias alguns postos grandes e bem-estruturados. Outros se modernizaram. Não são muitos. Já os pequenos postos, isto é, a grande maioria, “viraram um buraco”, nas palavras do presidente do Sindicam-SP, Norival de Almeida Silva.

E, no entanto, para agradar um caminhoneiro não é preciso muito. “O posto tem que ter, no mínimo, um pátio organizado e seguro não só por causa do risco de roubo, mas também para que o motorista, se quiser, possa fazer a sua refeição, a sua economia”, segundo Norival.

Norival de Almeida Silva: poucos postos se esforçam para cativar o caminhoneiro

Ele deixa claro onde é que a coisa pega para os caminhoneiros: no bolso. A vida anda difícil, e o presidente do Sindicam-SP reclama que os postos em geral não dão ao caminhoneiro um tratamento à altura do que ele gasta. “O autônomo detém 63% da frota, é um profissional que faz grandes despesas, especialmente com combustível, mas não recebe nada em troca. Poucos postos procuram cativar o caminhoneiro, oferecendo uma sala para o descanso dele, talvez até batendo uma água no caminhão. O atendimento está muito fraco”, acrescenta.

O problema poderia ser que os postos também estão vivendo dias duros, com baixa margem de lucro no combustível, mas isso não convence Norival. “Quando você vê um bom número de caminhões parados num posto, é porque ali se oferece alguma coisa especial, existe o companheirismo do dono... E a margem é a mesma.”

“Bater uma água” no caminhão: uma cortesia sempre bem recebida

SOBRA DEDO – Do jeito que Norival quer, são poucos os postos no Brasil. “Em São Paulo, se for contar na mão o número de postos onde o caminhoneiro é recebido com conforto, vai sobrar dedo”, diz. Mas, para não falarem que ele só critica, Norival aponta a Rede Flecha, com nove postos na BR-101, do Estado do Rio a Alagoas, como exemplar. “Quando eu fazia São Paulo-Nordeste, procurava abastecer sempre na Rede Flecha. Assim você fica conhecido. Se houvesse alguma fatalidade, eu podia contar com o apoio do pessoal do posto mais próximo, pois era cliente.”

Em São Paulo, Norival dá referência do Posto Bizungão III, de bandeira Texaco, no km 247 da Castelo Branco. A reportagem da Carga Pesada passou por lá. É uma pequena cidade voltada para o caminhoneiro, com 70 mil m2 de área total, pátio para 500 caminhões, estacionamento tipo espinha-de-peixe (para evitar manobras à ré), vigilância 24 horas, lavador, borracharia, auto-elétrica, restaurante, churrasqueiras, chuveiros, farmácia, banco eletrônico, parque infantil e até capela. Há, ainda, um estacionamento coberto onde o caminhoneiro pode fazer sua própria comida e lavar a louça.

Ali, a reportagem encontrou os irmãos Marcos e Laudenir Jovidi, paranaenses de Bela Vista do Paraíso, que tinham parado para almoçar, vindos de Maracaju (MS) para Santos com soja, cada um no seu bitrem – um Scania 94 e outro 97. Marcos confirmou que, em seu trajeto daquele dia, não existe outro posto como o Bizungão. “Tem o Arlei, na divisa, mas lá só tem o pátio, sem a cobertura e as pias”, ressalvou.

Os irmãos Laudenir (no fogão) e Marcos Jovidi: almoço é hora de economia

ECONOMIA – Eles estavam fazendo o almoço para economizar. “A gente gasta 50 reais por semana com alimentação, fazendo no caminhão. Em restaurante, custaria 50 reais no mínimo para cada um, só o almoço”, calcula Marcos. O cozinheiro é Laudenir.

O Bizungão não cobra pelo uso do pátio e das pias. Os irmãos não quiseram abastecer lá, onde o óleo diesel custava R$ 1,82 na bomba – tinham abastecido a R$ 1,71, sem medo da qualidade de combustível barato. “Até hoje não deu problema”, disse Marcos. A economia de quase R$ 60 nos 600 litros gastos na viagem para eles faz grande diferença.

Manoel, que não come em rodízios

A 50 metros do Scania, estava o Mercedes 1938, ano 2003, de Manoel Emídio Costa, empregado da Transcorreia, de Maringá (PR), que levava carne refrigerada para o Rio de Janeiro. Manoel também prefere economizar no almoço. “Caminhoneiro não vai em rodízio, não...”, disse. Ele parou no Bizungão porque sua transportadora tem acordo de negócios com o posto.

Francisco com o novato Alex: com segurança se descansa melhor

Quem também almoçou lá nesse dia – só que no restaurante – foram três motoristas da A. Cupello Transportes, de Duque de Caxias (RJ). Roberto Gomes, Francisco de Assis Nascimento Filho e Alex da Silva Fernandes estavam levando álcool para o Rio de Janeiro, em dois caminhões (o instrutor Francisco apresentava a rota ao novato Alex). Eles reforçaram a colocação do presidente do Sindicam-SP de que o mais importante num posto é a segurança, ao lado do bom atendimento. “O estacionamento tem que ser seguro, para a gente poder descansar tranqüilo e se preparar para prosseguir viagem”, observou Francisco. Eles não têm queixa do preço das refeições nos bons restaurantes de postos (em torno de R$ 10), embora possam até comer e tomar banho de graça, quando abastecem na rede com a qual sua transportadora tem contrato. Nesse dia, por conveniência, acharam melhor parar no Bizungão e pagar pela comida.

Alguns serviços que poucos postos oferecem

EMPRESAS – As empresas também procuram por postos de combustíveis que ofereçam o melhor produto e o melhor serviço pelo menor preço. “E os postos melhoraram muito”, na opinião do gerente de frota da Transportadora Falcão, de Londrina (PR), Luiz Marson, que conhece a situação do Brasil e do Mercosul, onde a Falcão tem linhas. A empresa tem 71 cavalos-mecânicos e 48 agregados.

Marson vai pessoalmente pesquisar pontos de apoio para seus caminhões, quando abre uma linha. Ele quer combustível de qualidade, bom atendimento, apoio na manutenção do caminhão, pátio seguro, bom restaurante, bons banheiros e, acima de tudo, bons negócios – preços camaradas e prazo de pagamento. Tem acordos com postos de várias bandeiras, “mas só bandeiras grandes, porque é mais seguro”.

O gerente da Falcão prefere não fazer contratos com empresas intermediárias de crédito entre usuários e postos; ele acha que economiza negociando preço e prazo direto com o dono do posto. “É uma economia em torno de 1% do custo com combustível. Como gastamos 270 mil litros de diesel por mês, não dá para desprezar um valor desses.”

O gerente de frota Luiz Marson: motorista deve pensar na saúde

Marson diz que busca o melhor nos postos para o seu pessoal. Ele é contra cozinha no caminhão, embora admita que a diária de R$ 23 em vigor no Paraná seja pequena para comer em bons restaurantes. “Motorista que cozinha perde tempo de descanso, mas deixo a critério de cada um por causa das emergências. Sei que 23 reais não é muito, mas digo a eles que não vale a pena economizar em alimentação. É a saúde que está em jogo. É um investimento que eles devem fazer neles mesmos.

 
 

 
     
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