| |
Haja caminhão pra matar
tanta sede
Radiografia do transporte de
bebidas mostra um mercado sofisticado, que exige complicada
logística, atende grande variedade de pontos de venda,
tem bons equipamentos, está adotando as vanderléias
e só é igual ao mercado geral do transporte
de cargas numa coisa: os fretes estão achatados...
Nelson Bortolin
A sazonalidade é a principal característica do
mercado de bebidas no país. Em dezembro, o consumo
de refrigerantes é praticamente o dobro de julho. Dentro
de um mês, de um dia para o outro, ocorrem diferenças
expressivas. Por exemplo: no dia 30 (ou 31), a Companhia de
Bebidas Ipiranga – fabricante da Coca-Cola em Ribeirão
Preto (SP) – vende 10% de sua produção.
A última semana representa 35% das vendas e a primeira
apenas 18%. Na segunda-feira se vende bem menos que na sexta.
Com a cerveja é semelhante. Em 2006,
o Brasil consumiu 700 milhões de litros em julho e
1,2 bilhão de litros em dezembro, segundo o sindicato
nacional das indústrias do setor. Do mês mais
fraco ao mais forte, o aumento do consumo é de 70%.
Diante dessa situação, e com
o mercado crescendo 7% ao ano, a eficiência do transporte
de bebidas depende de um bom planejamento. Certas fábricas
fazem elas mesmas o transporte de transferência e distribuição,
outras terceirizam a transferência e algumas delegam
toda a movimentação a transportadoras.
A Spaipa Indústria Brasileira de Bebidas
fabrica Coca-Cola para o Paraná e o noroeste de São
Paulo. Seu transporte de transferência é terceirizado,
mas a distribuição não. A empresa tem
quatro fábricas, cinco depósitos e quatro transit
points – locais que concentram pedidos de uma região,
mas não possuem depósito. Os caminhões
de transferência chegam com os pallets fechados e abastecem,
na hora, os veículos de distribuição
para a entrega em 29 mil pontos de venda e 74 distribuidores.
PICO – Segundo Jarbas Machado Júnior, gerente
da Divisão de Logística da Spaipa, todo ano
a empresa convoca as transportadoras para informar a expectativa
de vendas. “Fazemos o planejamento de verão e
vemos se as transportadoras que trabalham conosco o ano inteiro
podem nos atender; senão, buscamos outras. Além
disso, em momentos de pico, às vezes, contratamos 10,
15 carretas fixas.”
 |
Jarbas Machado Jr., da fabricante Spaipa: em momentos de pico, 10 a 15 carretas a mais
|
De acordo com Machado, as carretas que fazem
a transferência normalmente são de três
eixos e têm capacidade para 22 a 28 pallets, podendo
carregar 2.200 caixas de seis garrafas. “Eventualmente,
usamos bitrem.” Na frota própria, a Spaipa possui
230 caminhões toco para 10 pallets, das marcas Volkswagen,
Ford e Mercedes.
Trabalhando há 15 anos para a Spaipa,
a Transportadora Ouro Verde, de Curitiba, foi pega de surpresa
em dezembro de 2007. “O volume foi muito além
da expectativa. A solução foi colocarmos 10
carros, com dois motoristas cada, rodando 24 horas, fazendo
a transferência entre a fábrica e os depósitos”,
explicou o diretor comercial, Hélio Matias. Dos 470
veículos pesados da Ouro Verde, 52 trabalham só
para a Spaipa.
Os motoristas são agregados, mas com
um vínculo diferente do habitual. “Eles são
uma extensão da nossa frota. A carreta é nossa,
os pneus e a manutenção são nossos, mas
o cavalo é deles”, explica o diretor. Segundo
Matias, existe um contrato de exclusividade com a transportadora.
“Eles atendem a todas as nossas normas, usam uniforme
e crachás da empresa.” Os caminhões da
Ouro Verde que fazem a transferência para a Spaipa são
Scania, Volvo e Mercedes, 4x2 ou 6x2.
 |
|
Hélio Matias, da Trasnportadora Ouro Verde: 10 carros com dois motoristas cada, rodando 24 horas, só para fazer a transferência
|
 |
Para o transporte de bebidas, a empresa usa
carretas vanderléias. Matias considera o equipamento
ideal para o transporte de produtos pesados. “Consigo
carregar 30 pallets, em torno de 33 toneladas (89 mil latas
de Coca-Cola), numa vanderléia. Acredito que, hoje,
esse é o equipamento que pode tirar o bitrem do mercado.”
A empresa tem 60 carretas desse tipo.
ROTAS CURTAS –
Outra característica do transporte de bebidas são
os trajetos curtos, principalmente no Sul e no Sudeste, responsáveis
por 65% do consumo nacional. As fábricas, os centros
de distribuição (CDs) e os pontos de venda não
ficam muito longe uns dos outros.
Na Companhia de Bebidas Ipiranga, fábrica
da Coca-Cola para o sul de Minas e norte de São Paulo,
praticamente não há terceirização
de transporte. A transferência das fábricas aos
CDs é feita por bitrens em trajetos em torno de 100
quilômetros. A empresa está estudando o uso de
vanderléias nessa atividade. Segundo o gerente de Logística,
José Roberto Brussolo, os cavalos usados na transferência
têm potência de 360 ou 380 cv, a maioria Scania.
Dos CDs para os 22 mil pontos de venda, a empresa utiliza
tocos Volkswagen e Ford, com carroceria de alumínio
para 10 pallets. A Ipiranga só lança mão
de transporte terceirizado quando a demanda ultrapassa as
projeções, como ocorreu em 2007. “Tínhamos
uma expectativa de aumento de vendas de 3%, mas chegou a 10%”,
diz o gerente.
A sazonalidade é tão forte no
setor que, conforme Brussolo, influencia até nas férias
dos funcionários. “A última semana do
mês – quando os consumidores estão para
receber seus salários – representa 35% das minhas
vendas. Por isso, fora do verão, libero os funcionários
para férias sempre do dia 1º ao dia 20, e intensifico
a manutenção dos veículos nesse período.”
VOLUME ABSURDO – Outro
operador do transporte de bebidas é o Grupo Luft, que
transporta 440 milhões de garrafas de cerveja por ano
para a AmBev, tanto na transferência quanto na distribuição.
“Quando chega outubro, novembro, você começa
a ter um volume absurdo de bebida para distribuir e fica assim
até o carnaval”, diz Alberto Baldi, coordenador
de Logística do Luft. Em dezembro de 2007, ele contabilizou
um aumento de 30% na movimentação de bebidas.
 |
Alberto Baldi: a Luft transporta 440 milhões de garrafas de cerveja para a AmBev por ano
|
Na distribuição, o grupo atende
à AmBev nos CDs de Pelotas, Caxias do Sul e Sapucaia
do Sul (RS). Também atua na transferência de
São Paulo para o Rio de Janeiro e para o Paraná.
Para a transferência, são usadas
carretas de três eixos, que levam até 26 mil
garrafas de cerveja. “Não utilizamos o bitrem
e, por enquanto, não pensamos na vanderléia”,
informa Baldi.
O Luft tem mais de 1.600 caminhões,
dos quais 150 reservados para trabalhar para a AmBev. “Na
transferência, usamos Mer-cedes Axor 1933, carreta três
eixos. Na distribuição são vários
modelos, mas a maioria é o toco 17210 da Volkswagen,
com carroceria de 10 pallets e abertura nas laterais.”
SEM ESTOQUES –
Uma dificuldade a mais no transporte de bebidas está
no fato de que os pontos de venda evitam manter estoques.
“Se você verificar a saída do caixa de
um dia (nas grandes redes de supermercado), verá que
esta é a reposição do dia seguinte”,
explica José Roberto Brussolo, gerente de Logística
da Companhia de Bebidas Ipiranga. “Temos que garantir
o suprimento imediato, porque os clientes não querem
ter estoque.” Por isso, explica, as grandes redes de
supermercado estão abrindo a possibilidade de entrega
à noite, “mesmo com custos adicionais para segurança
e conferência”.
 |
Outra característica do setor é
a grande diversidade de pontos de venda – dos bares
da periferia aos grandes varejistas. Os intervalos de entrega
vão de uma vez por semana a todos os dias. “Uma
entrega nossa custa de R$ 15 a R$ 18. Muitos pedidos não
cobrem esse valor”, sustenta Brussolo. Os bares noturnos
só recebem à noite e querem que a entrega seja
feita no começo da semana. “Temos 10% de clientes
que demandam 40% do volume e 50% que compram 20%.”
RETORNÁVEIS
– Um fenômeno que começa a se refletir
na logística é o aumento das embalagens retornáveis,
que, no caso dos refrigerantes, subiram de 12% do total em
2006 para 16% em 2007, segundo a Associação
Brasileira das Indústrias de Refrigerantes e de Bebidas
Não-Alcoólicas (Abir).
“O bolsa-família está trazendo as classes
D e E para o consumo. Para pegar esse público, a Coca-Cola
está reintroduzindo a embalagem retornável,
barateando o custo para concorrer com a tubaína”,
explica Brussolo. Segundo ele, o preço da Coca-Cola
retornável de um litro – R$ 1,50 – é
semelhante ao da tubaína de 1,5 litro.
No entanto, Brussolo afirma que os grandes
supermercados não gostam dos retornáveis, que
custam mais e dão mais trabalho. “Já para
os pequenos pontos de venda, os não-recicláveis
têm mais saída.”
Paulo Mozart Gama e Silva, diretor-executivo da Abir, acha
que os operadores logísticos devem estar atentos para
essa tendência de crescimento das embalagens retornáveis.
“Isso vai se acentuar”, estima.
 |
Paulo Gama e Silva, da associação dos fabricantes: tendência é o crescimento das embalagens retornáveis
|
FRETE – Os
representantes das duas transportadoras ouvidas pela reportagem
dizem que os fretes de bebidas estão achatados, mas
evitam outros comentários.
O grupo ESALQ-LOG, da ESALQ (USP de Piracicaba),
criou em 2007 o Sistema de Informações Logísticas
para Bebidas (SIL Bebidas), que acompanha os fretes do segmento
em todo o País (http://log.esalq.usp.br).
O sistema mostra que os fretes se mantiveram praticamente
estáveis em 2007. “Apesar do aumento da demanda
por bebidas, também houve um aumento de oferta de caminhões
e o transportador não tem muito poder de barganha para
aumentar o preço”, explica o vice-coordenador
do grupo, Augusto Hauber Gameiro. “Além disso,
as empresas de bebidas oferecem um valor único de frete
para o ano inteiro, procurando assim criar uma relação
mais duradoura com o parceiro.” Segundo ele, até
2004, havia uma alteração bastante significativa
nesses valores em época de pico.
Os relatórios do SIL Bebidas dão
conta de que, em novembro de 2007, houve um aumento importante
da movimentação de cargas. “No entanto,
praticamente não houve reajuste nos valores de fretes
e, para a maioria dos informantes, não há previsão
de reajuste para os próximos meses”, diz o documento.
O relatório de outubro diz que houve
alguns ajustes, “tanto positivos como negativos”,
sendo a média de variação calculada em
+ 0,16%. Em setembro, o frete ficou estável e, em agosto,
houve um reajuste médio de + 3,5%, “por causa
do aumento de tarifas de pedágio”. Foram pesquisadas
94 rotas em todo o País. |
|