| |
Quem põe um freio na
falta de manutenção?
A “falha humana”,
apontada como causa da grande maioria dos acidentes de trânsito
no Brasil, inclui não só a imprudência
dos motoristas ao volante, mas também a falta de cuidados
com a manutenção dos veículos, especialmente
dos freios. Esta reportagem revela situações
apavorantes: caminhoneiros que não conhecem os cuidados
básicos com os freios, outros que desativam os freios
de um ou mais eixos e vão pra estrada e mais alguns,
cheios de si, que não sabem usar os freios e batem
boca querendo ter razão
Chico Amaro
 |
Um freio de caminhão:
pequeno conjunto de
peças com grande
importância porque a vida
das pessoas na estrada
depende do seu bom
funcionamento
|
Os jornais, as rádios e as televisões deram manchete
para o duplo acidente envolvendo caminhões, na BR-282,
perto de Descanso, no Oeste de Santa Catarina, no dia 9 de
outubro do ano passado, no qual morreram 27 pessoas e cerca
de 90 ficaram feridas.
Mesmo para quem está acostumado com
freqüentes notícias de graves acidentes de trânsito,
como ocorre no Brasil, aquele foi especial porque, por um
lado, algumas das vítimas foram pessoas que estavam
socorrendo acidentados; e, por outro, ficou patente –
como se viu no noticiário da época – que
o segundo caminhão estava sem freios, tendo feito uma
descida de 850 metros a partir do zero e chegado a 102 km/h
ao local onde ocorreu a tragédia. Do primeiro acidente
– caminhão contra ônibus, de frente, numa
curva – resultaram sete mortos; do segundo – o
abalroamento dos carros de socorro e o atropelamento de quem
estava na pista – mais 20.
Muita gente ficou penalizada pelo Brasil afora,
devido às circunstâncias trágicas e ao
elevado número de vítimas daquele acidente,
mas isso não foi suficiente para alguma autoridade
federal vir a público manifestar sua tristeza e dizer
o que o governo iria fazer para que tais cenas não
se repitam.
Ficou em xeque, porém, a questão
da manutenção dos caminhões que andam
por nossas estradas, especialmente dos freios. O laudo da
perícia concluiu que apenas duas das 10 rodas do segundo
caminhão tinham freios – e ele estava com três
toneladas de excesso de peso. “O perito (...) afirmou
que era visível a falta de manutenção
do sistema de freios do veículo”, escreveu um
jornal. Esses dois fatores – excesso de carga e defeito
nos freios – foram responsáveis pela pior parte
da tragédia.
40 MIL MORTES –
A reportagem da Carga Pesada constatou que a chance de ocorrerem
novos acidentes trágicos causados por falhas mecânicas
graves é enorme. Na verdade, eles estão acontecendo;
só não aparecem nas estatísticas porque
no Brasil não se faz perícia técnica
para apurar a causa de todos os acidentes. Na Inglaterra se
sabe: 24% dos acidentes são causados por problemas
com freios e pneus. Mas estatística de mortes no trânsito
nós temos: 40 mil em 2006, ou seja, 110 por dia –
o mesmo que quatro acidentes iguais ao de Santa Catarina todos
os dias. Muitos por falta de freios.
Descobrimos que a manutenção
dos freios de caminhões, em geral, recebe muito menos
atenção do que merece. O coordenador de operações
do BTS – a rede dos Bandag Truck Service, 130 concessionários
pelo Brasil –, Marcos Aoki, sabe bem disso. Ele está
acostumado a encontrar problemas nos freios de caminhões,
nas revisões gratuitas que os concessionários
fazem nas estradas, dentro da promoção chamada
Pit Stop, que inclui pneus, freios, suspensão, lubrificação,
acessórios e parte elétrica. Eis os números
do Pit Stop mais recente: de 52 veículos examinados,
45% tinham água no reservatório de ar que deveria
ser drenada, 20% tinham vazamentos causadores de queda de
pressão na frenagem e em 12% o vazamento se dava através
de acessórios ligados à rede de ar dos freios.
“São problemas pequenos, mas que podem ter graves
conseqüências, porque são nos freios”,
lembra Aoki. Alguns motoristas nem sabem que é preciso
drenar o reservatório de ar, segundo ele. “A
água diminui a vida dos componentes e a eficiência
dos freios. O motorista só precisa abrir uma válvula
e esgotar a água, uma vez por semana. Só que
alguns não sabem disso.”
Outra pessoa que conhece a realidade da manutenção
dos nossos caminhões é Paulo César Gottlieb,
diretor da Transtech Ivesur Brasil. A Transtech, de Pinhais
(PR), é uma das poucas empresas que fazem a chamada
inspeção veicular – uma inspeção
técnica obrigatória que certifica as boas condições
do veículo para trafegar. No Brasil, não chega
a 1% da frota, segundo Gottlieb, o número de veículos
que precisam ser submetidos a inspeção veicular;
entre eles encontram-se os caminhões que trafegam pelo
Mercosul e os que transportam produtos perigosos. Pois lá
na Transtech, afirma seu diretor, fizeram um levantamento
com dois mil veículos submetidos à inspeção
e encontraram defeitos nos freios em 46%. Quase metade com
falta de manutenção nos freios! “E com
defeitos graves, causadores de baixa eficiência ou até
mesmo ausência da capacidade de frenagem”, diz
Gottlieb.
 |
Marcos Aoki, da Bandag: alguns nem sabem
que devem esgotar a água do reservatório de ar
|
COSTUMES –
Aprofundando a conversa com Aoki e Gottlieb, verifica-se que
os caminhoneiros têm certos costumes, na operação
e manutenção dos freios de seus veículos,
que são um passo para um acidente grave e desnecessário.
Coisa comum é o motorista desativar
os freios de um ou mais eixos, devido a vazamentos de ar,
para poder seguir viagem. Fazem isso porque, quando ocorre
um vazamento de ar no sistema de freios, entra em ação
um sistema mecânico de emergência – inexistente
nos automóveis – que reduz a velocidade do caminhão.
“Essa é até uma forma de o motorista saber
que o caminhão está com problemas nos freios
que precisam ser resolvidos”, enfatiza Gottlieb. No
entanto, o que é que o motorista faz? Para poder seguir
viagem, desativa o freio do vazamento. “Infelizmente,
alguns acham que, como o caminhão tem cinco ou seis
eixos, o freio de um deles não vai fazer falta para
segurar o veículo. Então isolam o eixo com o
vazamento, num raciocínio totalmente equivocado, pois
a eficiência dos freios depende da atuação
conjunta de todos os eixos.” Gottlieb desconfia que
essa prática é a causa de muitos acidentes provocados
por caminhões “desgovernados”, como são
noticiados na imprensa.
 |
Paulo César Gottlieb: desativar o
freio de um eixo, achando que não
vai fazer falta, é um grande erro
|
É tão comum um caminhoneiro
achar que o caminhão não precisa de freios em
todos os eixos que alguns têm como certo, ao puxar carretas,
desativar o freio dianteiro “por razões de segurança”.
“Alegam que, ao frear o cavalo, a carreta tende a desviar-se
e dar o ‘L’, como se diz”, informa Marcos
Aoki. “Mas isso está errado. O veículo
foi projetado para o freio funcionar em conjunto. Se a manutenção
estiver em ordem, o freio dianteiro entrará em ação
depois do freio da carreta, e não ocorrerá o
‘L’.” Aoki dá essa explicação
a caminhoneiros sempre que pode, “mas alguns não
aceitam, contestam a gente, dizendo que sempre fizeram isso
e nunca deu errado”. Não deu errado por sorte,
na opinião de Aoki. Assim como têm sorte aqueles
que, ao puxar carretas de terceiros, desativam os freios do
cavalo, para gastar só os da carreta, fazendo ‘economia’.
“Dizem que isso é muito comum. Mas eu garanto
que é muito arriscado”, completa o funcionário
da Bandag. |
|