GREVE DOS CAMINHONEIROS
 

 

Saem as primeiras soluções

 

 

Negociações com o governo continuam. Mas a Lei da Balança muda já.

Terminado (no fim de outubro) o prazo de 90 dias após a greve de julho, para que o governo atendesse as reivindicações dos caminhoneiros, o resultado mais concreto, a favor dos caminhoneiros, diz respeito à Lei da Balança: o excesso tolerado passa a ser, oficialmente, de 7,5%, e não de 5%, como era antes. Na verdade, essa norma já está em vigor desde agosto (logo que acabou a greve), mas agora o Denatran vai baixar uma portaria com a regulamentação. E a portaria trará uma importante novidade: em caso de excesso de carga no peso entre-eixos, será necessário remanejar o excesso para outro veículo, mas - é isto que interessa para o bolso - não será lavrada multa.

Sobre a Lei da Balança é isso aí, mas... e quanto ao resto? A comissão formada logo após a greve para estudar as reivindicações, formada por caminhoneiros, funcionários do governo e representantes dos empresários do setor, decidiu prorrogar as conversas por mais 30 dias (ao longo de novembro), ao mesmo tempo em que os caminhoneiros prometeram não fazer nenhuma greve ao longo dos próximos 90 dias (até o fim de janeiro). O Movimento União Brasil Caminhoneiro está com uma página na internet (http://www.uniaobrasil.caminhoneiro.com.br) onde dá informações sobre o andamento das negociações.

DAR TEMPO - Diumar Cunha Bueno, presidente do Sindicam-PR e membro da comissão, acha que a prorrogação do prazo é justa: "Temos que admitir que não é de uma hora para outra que se fazem as coisas. E o governo demonstrou que não parou de trabalhar visando nos atender. Tivemos, em média, uma reunião por semana, em Brasília".

Nélio Botelho, líder do Movimento União Brasil Caminhoneiro, acrescenta: "Desde o início das negociações, achei o prazo de 90 dias insuficiente para atendimento da pauta de reivindicações. Mas quem está participando das reuniões pode sentir que o resultado final será bastante positivo".

Não que não haja obstáculos no caminho. Por exemplo: atendendo aos caminhoneiros, o governo enviou projeto de lei ao Congresso pedindo o aumento da pontuação por multas de 20 para 30 para suspensão da carteira de motorista. Só que o relator do projeto já disse na imprensa que é contra essa mudança. O ministro dos Transportes, Eliseu Padilha, jura que a bancada de deputados do governo votará unida pela mudança. Mas esse governo já jurou tanta coisa...

TABELA DE FRETES - Quanto à questão do tabelamento do frete, segundo Nélio Botelho, também teve sua solução encaminhada nesta fase de negociações. "A NTC (Associação Nacional das Empresas de Transporte de Cargas) é contra, mas 90 por cento dos telefonemas que recebemos aqui são justamente de empresários pedindo uma tabela de fretes. A CNT - Confederação Nacional dos Transportes - está elaborando uma planilha que será apresentada para três confederações vitais na economia do país - Confederação Nacional da Indústria, Confederação Nacional da Agricultura e Confederação Nacional do Comércio -, em reunião convocada pelo Ministério dos Transportes para o próximo dia 9 de novembro. Não será uma tabela oficial, mas um referencial, um piso de valores que servirão de base para negociações dos caminhoneiros", afirma Nélio. De qualquer forma, a greve, sozinha, e independente das negociações que vieram depois, serviu para dar melhorada geral nos fretes. A própria Companhia Siderúrgica Nacional, que é atendida pelos caminhões da Cobrascam, cooperativa presidida pelo Nélio Botelho - elevou em cerca de 35% o que paga de frete. Caminhoneiros amigos da Carga Pesada informaram que a tonelada de Londrina para São Paulo, que antes da greve estava na faixa dos R$ 32, agora chega a R$ 50.

Sobre segurança nas estradas, o governo acatou a sugestão de Diumar Cunha Bueno já implantada pela Polícia Rodoviária do Paraná: o estímulo à utilização do rádio PX para comunicação dos caminhoneiros com a polícia. Uma campanha do Sindicam-PR resultou em que todos os postos da Polícia Rodoviária do Estado ganhassem o seu PX. Também haverá um "disque-denúncia" à disposição dos caminhoneiros, cuja central será instalada na sede da União Brasil Caminhoneiro, no Rio de Janeiro.

FINANCIAMENTO - Outras reivindicação prestes a ser atendida: haverá dinheiro para financiar a compra de caminhões novos pelos autônomos. Será criada uma linha de crédito especial, provavelmente no Banco do Brasil, com prazo de oito anos para pagamento, dois anos de carência e 10% de juros ao ano. Mas o interessado terá que provar que já atua no ramo de transportes para receber ter direito às facilidades do financiamento.

Nélio anunciou para o dia 10 de janeiro um balanço final dos resultados do Movimento União Brasil Caminhoneiro: "Queremos ter 100% da pauta atendida. Estou praticamente vivendo em Brasília desde o final da greve e o governo parece não estar a fim de correr o risco de ter uma nova greve. Acredito que teremos sucesso. E, se assim for, vamos formar uma entidade nacional dos caminhoneiros, organizada, com cobrança de mensalidade. O valor estimado até o momento é de R$ 10,00." .

 
 

O problema do pedágio

Pedágio: taí um aspecto das conversas com o governo em que as coisas estão muito pouco seguras para os caminhoneiros. Bem na última semana de outubro, no encerramento do prazo de negociação das reivindicações da greve de julho, entre as quais a redução dos valores dos pedágios era uma das principais, o governo anunciou, para novembro, um reajuste do pedágio de quase 15% nas rodovias federais privatizadas: Via Dutra, Ponte Rio-Niterói, Rio-Juiz de Fora, Rio-Além Paraíba e Osório-Porto Alegre. Anunciou mas, depois, voltou atrás, afirma Nélio Botelho, que disse ter ouvido o desmentido da mesma pessoa que havia feito o anúncio, o diretor de Concessões do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER), Lívio Rodrigues de Assis. Em todo caso, é bom ficar alerta.

Botelho também está preocupado com a carga de pedágios do Estado de São Paulo. De Santos a Barretos, no interior paulista, existem oito praças de pedágio que custam, para uma carreta, R$ 205,00, enquanto o frete médio da rota não passa de R$ 350,00. "A situação em São Paulo é desesperadora. O pedágio está proibitivo e pode provocar uma nova paralisação dos caminhoneiros", diz Nélio Botelho.

"Nossa pauta é endereçada ao governo federal. Mas já estou agendando uma reunião com o governador de São Paulo, Mário Covas, para tratar do problema específico de São Paulo. Mesmo porque aquele anúncio de que caminhoneiro não pagaria mais pedágio em São Paulo (conforme a Carga Pesada publicou em sua edição 83) não está funcionando e não vai funcionar".

O que, aliás, já estava previsto nas fontes que nós, da Carga Pesada, ouvimos na reportagem da edição passada.