Fretes
Acabou-se o que era doce

 
 
O Sistema de Informação de Fretes da USP (Sifreca) informa: com o fim da safra, ocorreu uma brusca queda no valor dos fretes
 
 
Terminada a safra, estamos "de volta à vida real": os caminhoneiros assistem à queda vertiginosa nos valores dos fretes. Um carreto de soja de Londrina, no Norte do Paraná, ao Porto de Paranaguá (464 quilômetros), que chegou a R$ 42,20 a tonelada em abril, já havia caído para R$ 37,13 no início de maio. A informação é do Sistema de Informação de Fretes (Sifreca, da Universidade de São Paulo).

Caminhoneiros entrevistados pela Carga Pesada, no dia 31 de maio, afirmaram que o transporte da tonelada naquele trecho já estava a R$ 22, menos do que foi registrado pelo Sifreca no final de dezembro do ano passado, R$ 25,55.

Para Mauro Olmedo Barrios, 33 anos, de Nova Alvorada (MS), a situação "não tem jeito". Durante a safra ele trabalhou no trecho Rio Brilhante (MS)_Santos, cerca de 1.100 quilômetros. Segundo Barrios, o melhor preço que ele conseguiu foi R$ 65. Mas no início de junho não conseguiria nada melhor que R$ 43 a tonelada. "Com este preço, tudo o que se ganha é gasto no óleo diesel. Além disso, as empresas não estão pagando o vale-pedágio", denuncia. Ele conta que, ao chegar na empresa, o caminhoneiro pode "escolher" quanto quer ganhar: R$ 60 sem o vale-pedágio ou R$ 56 com o vale.

ABAIXO DA PAUTA - João Pedro de Oliveira Filho, 52 anos, de Sapopema (PR), trabalhou durante a safra no trecho Londrina_Paranaguá. Ele afirma que seu melhor frete foi de R$ 38 a tonelada e que no dia 31 de maio o mesmo trecho estaria valendo R$ 22. Este valor está abaixo da pauta referencial de frete do Sindicam_PR, que a Receita Estadual ainda não pôs em prática. Segundo a pauta do sindicato, o valor mínimo do frete para trechos de 450 a 500 quilômetros é de R$ 23,79 para carreta e R$ 30,25 para truck. Oliveira Filho também reclamou do vale-pedágio. "Posso dizer que em apenas 30% dos fretes o vale-pedágio está sendo cumprido", afirma.

Cláudio Gonçalves Medeiros, 45 anos, de Campo Grande (MS), trabalhou num trecho de 1.000 quilômetros em Mato Grosso. O melhor frete, segundo ele, foi de R$ 45,37, valor que já havia despencado para R$ 37. No começo de junho, ele estava em Cambé (PR), para onde levou soja, e conta que recebeu uma proposta para voltar para Campo Grande carregando adubo por R$ 17 a tonelada. "Prefiro voltar vazio. Esse valor não paga a viagem", reclamou. Para ele, o vale-pedágio é uma grande mentira. "As empresas fazem manobra. Dizem que o frete saiu por R$ 36, mas pagam R$ 35", exemplifica.

Hélio Brussaferri, 40 anos, de Cambé (PR), trabalhou na safra transportado soja na região, em trechos de cerca de 50 quilômetros. Ele alega que os produtores chegaram a pagar R$ 0,50 a saca, mas no final de maio a oferta era de menos de R$ 0,20. "Acho que até a próxima safra eu vou ficar mais parado do que trabalhando. Por esse valor não dá", garante. Brussaferri diz que, na safra, os produtores pagaram todos os pedágios que ele utilizou.

PNEU PERUCADO - O paranaense Amauri Carlos Simardi, 35 anos, de Santa Fé, fez o trecho Campo Grande (MS)-Maringá, cerca de 700 quilômetros. "Cheguei a ganhar R$ 30, mas hoje não pagam mais do que R$ 22. Esse valor deve continuar caindo", afirma. Para Simardi, a solução é "empurrar as dívidas com a barriga". "Vamos levando, jogando as dívidas para a frente, comprando pneu perucado, abastecendo no cheque. Até quando a gente vai agüentar, eu não sei", reclama.

Celso Luis Lopes, 35 anos, de Santo Inácio (PR) afirma que, enquanto não chegar a safra de milho, "vai ficar essa pobreza". "Mesmo com a safra não deu para pagar as contas. Daqui a alguns dias vamos estar comendo capim", sentencia.


Celso: "Em breve estaremos comendo campim"

Mauro: "Gasto no diesel tudo o que ganho"

João Pedro : "Vale-pedágio, só em 30% dos fretes"

Cláudio: "Prefiro voltar vazio"

Amauri: "Compro pneu perucado e abasteço no cheque"

  USP monitora dança dos fretes
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