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Caminhões


O novo, o semi, o velho


Na edição nº 94, publicamos uma reportagem em que o presidente da cooperativa de autônomos Coopertrans, Nelson Dalóia, de Mauá (SP), apontava as virtudes e os defeitos dos caminhões Mercedes-Benz 1618 e 1620, os modelos mais comuns entre os associados da Coopertrans. Assim, começamos uma série para mostrar o que os caminhoneiros dizem de seus instrumentos de trabalho, com toda a sinceridade. Desta vez, escolhemos fazer uma comparação: na hora de conseguir o frete, carregar a carga, sair para a estrada e chegar ao destino, quem leva vantagem - o caminhão novo, um mais "experiente" ou um veterano de 30 anos? Leia o que disseram os motoristas de três Mercedes-Benz que têm a mesma capacidade e transportam carga seca. Ao final, os oportunos comentários de um técnico da Mercedes.

O vovô

Caminhão: Mercedes 2013, ano 1972
Valor: R$ 23 mil.
Condutor: o proprietário, Enori Denig, de Arapongas (PR).
Capacidade: 14 mil quilos.
Rota habitual: de Londrina (PR) ao Mato Grosso, levando elevadores Atlas. E, para voltar, "o que aparecer".
Consumo: 3 km/l carregado.
Gastos com peças e oficina: "Difícil de dizer. Tem mês que não dá nada, mas em maio gastei R$ 700".
Gastos com pneus: um recape por mês, R$ 150.
Pontos fortes: "O baixo custo das peças e a pouca manutenção. É fácil encontrar peças para caminhões fabricados até 1988. Nos novos, não, é tudo eletrônico. Troquei um comando de válvulas por R$ 230. O meu sobrinho gastou R$ 700 no mesmo serviço num caminhão novo".
Pontos fracos: "Atrai ladrão e o motor é meio fraco. A cada 300 mil quilômetros, tem que fazer o motor. Os Cummins, dos novos, agüentam 1 milhão. Só que o caminhão é bem mais caro".
Faturamento X despesas: "Não sobra nada. A gente só roda. Um frete de São Paulo para Londrina é R$ 289. Gasto R$ 70 com pedágio e R$ 150 de óleo. Preciso de pelo menos R$ 12 por dia para comer. No final, não sobram R$ 50. Vivo devendo. Descubro um santo para cobrir outro".
A profissão: "Estou há 5 dias esperando carga. Não é porque o caminhão é velho, é por falta de uma lona grande, para carga alta. Custa mais que o frete. Se comprar a lona, não terei para comer, não viajo. Tenho pensado em trocar por um caminhão pequeno, para ficar em casa e rodar só na cidade. Ganha-se mais e é mais tranqüilo. Estrada vai acabar ficando só para as grandes transportadoras. É o que o governo quer".

O madurão

Caminhão: Mercedes 1518 ano 1988.
Valor: R$ 42 mil.
Condutor: empregado, Paulo Yamamoto, de Apucarana (PR).
Capacidade: 14 mil quilos.
Rota habitual: entre o Paraná e o Rio de Janeiro, leva ração e traz a matéria-prima, farinha de peixe.
Consumo: 4,2 a 4,5 km/l.
Gastos com peças e oficina: "Às vezes nada, mas no mês passado, por exemplo, gastei R$ 700".
Gastos com pneus: "Um recape por mês, mais ou menos. Acho que uns R$ 300 por mês".
Pontos fortes: "Quase não dá despesa com manutenção, só regulagem de freio e faixa de freio. O seguro também não é tão caro, uns R$ 400 por mês".
Pontos fracos: "O câmbio deveria ser mais reforçado. Está dando problema no sincronizado. Uma vez por ano, tenho que parar pra ver isso".
Faturamento X despesas: "O patrão fica com uns R$ 700 por mês, depois de pagar o motorista. Ainda é melhor do que ficar parado, mesmo gastando R$ 1.300 em pedágio em cinco viagens mensais. Caminhão parado dá despesa do mesmo jeito e não ganha nada".
A profissão: "Já tive cinco caminhões e perdi todos. Dois foram roubados, um foi trombado e os outros tive que vender pra pagar dívidas. É melhor ser empregado".

 

O novinho

Caminhão: Mercedes L1620 ano 2000.
Valor: "Deve ser uns R$ 80 mil".
Condutor: empregado, Daniel Werner, de Delmiro Gouveia (AL).
Capacidade: 14 mil quilos.
Rota habitual: São Paulo-Nordeste, levando fogões e geladeiras e trazendo cocos e melões. Duas a três viagens de 6 mil quilômetros, ida e volta, por mês.
Consumo: 3,2 km/l carregado.
Gastos com peças e oficina: "Em um ano e meio rodando, só gastou diesel, óleo do motor e o peão".
Gastos com pneus: "Mais ou menos um pneu recapado por mês".
Pontos fortes: "É rápido e confiável. É novo, né?"
Pontos fracos: "É meio duro, pula muito. Não tem conforto na cabine".
Faturamento X despesas: "Sobra R$ 1 mil por viagem pro patrão, sem contar o desgaste; contando, deve sobrar a metade. E ele ainda pagou R$ 4 mil de seguro à vista".
A profissão: "Não acho que esse caminhão leve vantagem sobre os mais velhos, na hora de arrumar carga. A não ser que seja carga com horário, como verduras. Aí o sujeito chama o mais novo pra se garantir, o mais velho vai ficando na fila. Mas, pra levar geladeira e coco, tanto faz".

A palavra do especialista

O coordenador de assistência técnica regional da Mercedes-Benz no Paraná e Santa Catarina, Luiz Becker, foi convidado pela Carga Pesada para avaliar as informações dadas pelos três caminhoneiros. Leia até o fim, porque a análise que ele faz sobre a maneira como os transportadores trabalham hoje pode lhe interessar.

Becker disse que é mesmo fácil encontrar peças dos Mercedões antigos. "Desde que os motores da série 352 chegaram ao País, no final da década de 60, inúmeras oficinas e autopeças `se especializaram' na marca." Segundo ele, só 15% dos Mercedes são levados a oficinas de concessionárias, 35% recebem assistência em oficinas próprias de transportadoras e os outros 50% procuram a oficina da esquina mais próxima.

O 2013 "atrai ladrão"? Becker afirma que esse é o `fusca' dos caminhões, "muito procurado pelos ladrões para desmanche e revenda de peças".

E se o motor do 2013 tem que ser feito a cada 300 mil quilômetros, "talvez o motorista esteja tentando andar no ritmo dos novos. Só que o motor dele, dos anos 70, foi feito para andar a 50 km/h e não nas velocidades bem mais altas de hoje".

Em relação a avarias do sincronizador do 1518, o técnico acha que há alguma coisa errada na informação, pois o sistema não tem problemas de durabilidade. "A única função do sincronizador é fazer coincidir as rotações de engrenagem, sem raspar a marcha. Não está voltado para esforço de tração", disse.

Quanto a queixas sobre o conforto da cabine do L1620, Luiz Becker diz que nunca tinha recebido reclamações do gênero. "Esse modelo tem o mesmo conceito dos anteriores."

Quanto à questão da rentabilidade para quem trabalha com transporte rodoviário, Luiz Becker faz a seguinte análise: "Acho que o setor de transporte deveria repensar a atual tendência de carregar cada vez mais o mesmo veículo. Quanto mais se carrega, mais desgaste sofre o veículo e a estrada. E também não acredito que carregar cada vez mais garanta uma rentabilidade maior para os autônomos e transportadoras. Na realidade, quanto mais se carrega, mais o frete baixa. E a durabilidade do carro e as condições das estradas ficam piores".

   
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