Seguradoras investem contra associações de caminhoneiros

 

Tamanho do texto;

LUCIANO ALVES PEREIRA Consta que o consorcio, como meio de aquisicao de bens de consumo duraveis, comecou no Banco do Brasil. Os estaveis funcionarios da estatal tinham tempo de sobra para divagacoes extratrabalho... A boa ideia empinou, foi regulamentada e ganhou o mercado. Nao sem antes ter imposto pesados prejuizos aos participantes de grupos que tropecaram. Mais recentemente, os caminhoneiros autonomos, de forma intensa, enveredaram por caminho identico, fugindo as leguas do premio do seguro de caminhoes, que, no Brasil, e dos mais caros do mundo. No caso, a cobertura foi contra roubo e colisao, que se tornaram cada vez mais frequentes. O jornal Estado de Minas, de Belo Horizonte, publicou no dia 15 de novembro, que a ideia de agrupar pessoas para a formacao de um fundo ocorreu em 2004, entre cegonheiros da Fiat, em Betim. O grupo recolhia contribuicoes mensais, no estilo ‘acao entre amigos’, para fazer frente aos eventuais prejuizos das andancas com os caminhoes. No entanto, ha registro anterior, publicado pela Revista Veiculo, em maio de 1993. Em Martinho Campos, uma cidade mineira a 200 quilometros da capital, salvou o autonomo Jose Nilson da Silva da derrocada. Seu Mercedes amarelo, ano 1963 puxava pedra ardosia da vizinha Papagaios e, em Sao Paulo, foi furtado no Posto Zabeu, situado na Marginal Tiete. O desespero tomou conta do estradeiro, que viu o seu sofrimento reverter com a iniciativa dos conterraneos Jacinto Dias dos Santos, Wander Lucio Costa, Jose Henrique e outros. Eles abriram uma lista de contribuicoes e arrecadaram CR$ 300 milhoes, no dinheiro desvalorizado de marco de 1993. Jose Nilson foi a Patos de Minas e comprou outro Mercedes, tambem amarelo. A boa experiencia mostrou o caminho das associacoes, hoje bem disseminadas. Mas o sucesso do circulo fechado – que nada mais e do que o fruto da uniao classista – esta incomodando os bancos. Depois de processos propostos na Justica pela Superintendencia de Seguros privados (Susep), apareceram em agosto as primeiras condenacoes “envolvendo entidade que opera em Sao Jose dos Campos (SP)”. No entendimento da Susep, diz o jornal mineiro, “cooperativas, associacoes, clubes entre caminhoneiros sao entidades que se fazem passar por seguradoras e comercializam seguros de veiculos travestidos de protecao automotiva”. Por bencao divina, a Susep nao tem poderes de fechar “as associacoes flagradas no comercio irregular de seguros”, mas a denuncia foi feita junto ao Ministerio Publico Federal e a Policia Federal. Foi lavrada multa de R$ 53 milhoes contra a Associacao dos Transportadores de Carga Geral, de Marau (RS). A acusacao e de haver formado clubes de seguros entre caminhoneiros. Reforcando as intencoes do governo, Sandra Kiefer, autora da reportagem da pagina 14, chega a tomar partido: “A Susep nao diz isso com todas as letras, mas quer acabar com as entidades que atuam no mercado paralelo ao das seguradoras. Por lei, toda atividade que capta dinheiro do publico precisa de lastro e ser controlada pelo Estado”. Sandra refere-se a necessidade de provisoes, reservas e aplicacoes financeiras. So nao cita o lucro exorbitante das seguradoras -- leia-se bancos --, no caminho oposto das associacoes, que trabalham com a rotina de mensalidades e rateio. Pelo percebido, o universo de pequeno transportadores e autonomos esta vigilante, mas preocupado com mais um atentado chapa-branca. Impoe-se uniao e indignacao, resguardando o seu direito de defesa frente ao mais indecente oligopolio armado no pais e que desonra a patria amada com a taca dos juros mais elevados do planeta.