Direto da
Redação

Novo viaduto das Almas leva nome de engenheiro

 

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LUCIANO ALVES PEREIRA





O nome eleito pelos deputados foi o de Márcio Rocha Martins. Como ninguém da estrada e até fora dela o conhece, é preciso assinalar que o engenheiro Márcio – falecido em 2006 – foi dono da M.Martins, empreiteira mineira especializada em pontes e que, por coincidência, ergueu o novo viaduto no ano passado. E como foi essa quase sigilosa nomeação? O deputado federal José Santana de Vasconcellos (PR-MG) protocolou o pedido ao Congresso Nacional em junho de 2007.

Outros fizeram o mesmo, em datas diferentes, visando variados nomes. Por exemplo, Risoleta Neves (falecida), mulher de Tancredo Neves e dom Luciano Mendes, religioso que foi presidente da CNBB (também falecido). A certidão de nascimento propondo Márcio Martins andou mais rápido, virou lei com a sanção de Lula, sendo publicada no Diário Oficial da União em 15 de janeiro.

Como praxe, surgirá uma placa pregada ao concreto, informando o nome de Márcio. No entanto, os usuários não adotarão o novo titular, pondera a voz geral. Não apenas porque a estrutura em curva foi batizada há 53 anos, mas principalmente pelas mortes evitáveis, ocorridas aos pés de seus múltiplos pilares.

Em valioso trabalho, o repórter Paulo Henrique Lobato, do jornal Estado de Minas, soltou um Caderno Especial em cima da data de aniversário do das Almas, ou seja, no dia 1° de fevereiro. Pinçou fotos preciosas do arquivo da extinta revista O Cruzeiro (também dos Diários Associados) e deteve-se demoradamente na colheita de depoimentos de parentes de vítimas dos inúmeros acidentes provocados pelas quedas de cerca de 30 metros, a partir do tabuleiro do pontilhão.

Em detalhada prospecção, Lobato conseguiu levantar a cronologia dos sinistros e por mais que se queira exorbitar, o jornal conseguiu totalizar 75 mortos. Antes dos encerrantes, ressalvou que “não há dado oficial, pois o poder público carece de estatísticas de acidentes”.

Ao lado de questões menores, confirmou-se que quase 100 vidas se foram e isto é muita coisa para um teimoso ponto crítico de 262 metros de comprimento, o qual não recebeu a devida correção por desmazelo e irresponsabilidade do extinto DNER, ministério dos Transportes e assemelhados.

Na visão do repórter, o das Almas adquiriu “o rótulo de trecho mais charmoso da ex-BR-3, sendo tachado depois de o mais perigoso da BR-040”. Uma pinguela mortífera desse porte teria tido charme em alguma época? Ainda que a resposta imediata seja um vigoroso não, o autor do Caderno Especial, parece ter sido arrebatado pelo denso comentário alusivo do presidente da Sociedade Mineira de Engenheiros, Márcio Damázio Trindade. “As obras-de-arte não perdem a dignidade, mas podem perder a utilidade”, disse.

Conclui-se daí que apesar dos gritantes riscos, o viaduto das Almas há muito deixou de ser obra-de-arte para ganhar o status de obra de arte. Damázio fala com confortável autoridade já que estava presente à festa de JK, na inauguração da BR-3.

Foi no acolhedor e então bem cuidado ‘ponto de descanso ajardinado’, lateral à estrada e cabeceira do das Almas. Menos privilegiado, eu só passei sobre o viaduto um ano depois, em janeiro de 1958. Ah, em tempo: o DNIT prometeu a liberação da obra para o final do mês. Mas ninguém deve encomendar roupa nova para festa porque pode furar. Mais uma vez...


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