Quatro ocorrências registradas entre domingo e quarta-feira envolveram caminhões e carretas em rodovias de quatro Estados; especialista aponta descompasso entre crescimento da frota e infraestrutura

Nelson Bortolin

Em três dias, ao menos 31 pessoas morreram em quatro acidentes envolvendo caminhões e carretas no País. A tragédia mais recente ocorreu na madrugada desta quarta-feira (19), na BR-373, em Ipiranga, no Paraná. Uma carreta invadiu a pista contrária e bateu de frente com um micro-ônibus que transportava pacientes de Imbituva para atendimento médico em Curitiba. Ao todo, 23 pessoas morreram, incluindo o motorista do caminhão.

As causas do acidente ainda não foram reveladas. Outros três acidentes envolvendo veículos pesados foram registrados entre domingo (16) e terça-feira (18), em rodovias de Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná. Veja os demais acidentes no quadro.

Para o engenheiro e especialista em transporte rodoviário Rubem Melo, da TRS Engenharia, a análise de acidentes envolvendo caminhões não deve se limitar à responsabilidade do motorista. Segundo ele, existe um problema estrutural que vem se agravando há décadas: o crescimento da frota de veículos de carga não foi acompanhado pela expansão da infraestrutura rodoviária. “Nos últimos 30 anos, a frota de caminhões, reboques e semirreboques aumentou cerca de 300%, ou seja, quadruplicou, enquanto a extensão das rodovias pavimentadas cresceu pouco mais de 40%”, afirma.

De acordo com Melo, como consequência, hoje circulam cerca de duas vezes e meia mais veículos de carga por quilômetro de rodovia do que há três décadas.

O engenheiro Rubem Melo, da TRS Engenharia

O especialista avalia que esse aumento da pressão sobre as rodovias contribui para a formação de congestionamentos e eleva o risco de colisões. “Tenho observado, por exemplo, um crescimento dos engavetamentos no Paraná. Em muitos casos, o trânsito vai se acumulando, forma-se uma fila e, no final dela, basta um motorista distraído, cansado, com velocidade incompatível ou até mesmo um problema nos freios para ocorrer uma sequência de colisões traseiras.”

Melo ressalta que fatores como excesso de velocidade, ultrapassagens proibidas, uso do celular, sono ao volante, excesso de jornada e falta de manutenção continuam sendo importantes na ocorrência de acidentes. Para ele, porém, esses problemas ocorrem atualmente em um ambiente mais crítico, com rodovias operando próximas do limite de capacidade. “Ou seja, o erro humano continua existindo, porém suas consequências podem se tornar muito mais graves”, afirma.

Outro ponto destacado pelo engenheiro é a pressão sobre os motoristas provocada pelo aumento do tráfego. Com viagens mais demoradas, os prazos de entrega muitas vezes permanecem os mesmos, o que pode aumentar o estresse e a pressão sobre quem está ao volante.

Nesse cenário, Melo defende maior fiscalização do cumprimento da jornada de trabalho e a ampliação de pontos seguros de descanso para os caminhoneiros.

Na avaliação do especialista, a redução dos acidentes exige um conjunto de medidas, que inclui melhorias na infraestrutura, duplicação de rodovias e eliminação de gargalos, além da ampliação das áreas de descanso e da fiscalização de velocidade, jornada e condições de manutenção dos caminhões.
“Em resumo, não existe uma causa única. Os acidentes são resultado da combinação de fatores humanos, operacionais, mecânicos e de infraestrutura”, afirma Melo. Para ele, entretanto, o descompasso entre o crescimento da frota e a capacidade da infraestrutura rodoviária é hoje um dos principais fatores de fundo, capaz de potencializar os demais riscos, especialmente aqueles relacionados à manutenção precária dos caminhões.