Relatório analisou 412 registros feitos por usuários da ferramenta entre 2021 e 2026; casos somam R$ 2,54 milhões em estadias e mostram demora muito acima do limite legal
Nelson Bortolin
Caminhões que tiveram suas operações registradas na Calculadora de Estadia da Federação dos Caminhoneiros Autônomos de Cargas em Geral do Estado de São Paulo (Fetrabens) permaneceram, em média, 3 dias, 16 horas e 32 minutos à espera de carga ou descarga. O tempo corresponde a 88 horas e 32 minutos, ou aproximadamente 17,7 vezes o limite legal de cinco horas a partir do qual é devida a remuneração pela estadia.
O dado faz parte do Relatório Técnico sobre a Aplicabilidade da Calculadora de Estadia da Fetrabens no Transporte Rodoviário de Cargas, elaborado pela Trucker Inovação e Empreendedorismo Social. O estudo analisou 412 registros reais de utilização da ferramenta, feitos entre 27 de abril de 2021 e 2 de março de 2026. Os casos estão distribuídos por 18 Estados e pelo Distrito Federal.
O levantamento, porém, não é uma pesquisa amostral do transporte rodoviário brasileiro. Os 412 casos são registros de usuários que utilizaram a Calculadora de Estadia da Fetrabens. O próprio relatório ressalta que a distribuição dos registros entre os Estados é heterogênea e que a quantidade reduzida de casos em algumas unidades da federação limita a possibilidade de generalização dos resultados.
Isso significa que os 3 dias, 16 horas e 32 minutos representam a média dos casos registrados na ferramenta, e não uma estimativa do tempo médio de espera de todos os caminhões que fazem operações de carga e descarga no país.
Como os registros foram obtidos
A Calculadora de Estadia está em operação no site da Fetrabens desde 2021. O usuário informa dados da operação, como identificação do transportador, localidade, data e horário de chegada e saída e capacidade de carga do veículo. A partir dessas informações, a ferramenta calcula o valor da estadia e gera uma certidão com os dados da operação.
São Paulo concentra quase metade dos casos
Os registros não estão distribuídos igualmente pelo país. São Paulo responde por 43,1% da base, com tempo médio de espera de 3 dias, 13 horas e 26 minutos. O relatório aponta ocorrências em diferentes regiões e casos extremos de espera superiores a uma semana.
A concentração dos registros em São Paulo é outro motivo pelo qual os resultados não podem ser tratados como uma fotografia estatística de todo o transporte rodoviário brasileiro.
R$ 2,54 milhões em estadias
Os 412 registros analisados resultaram em R$ 2.544.212,23 em valores calculados de estadia, com média de R$ 6.424,78 por ocorrência. A remuneração é calculada de acordo com os parâmetros estabelecidos pela legislação. A Lei nº 11.442/2007 estabelece prazo máximo de cinco horas para carga e cinco horas para descarga. Ultrapassado esse período, é devida a remuneração pela estadia.
A ferramenta considera a capacidade total do veículo para o cálculo e registra os horários exatos de chegada e saída. Na emissão da certidão, também são solicitados documentos como CT-e, CIOT e RNTRC.
Demora aparece também em pesquisas nacionais
Para dimensionar o problema, o relatório compara os dados da calculadora com pesquisas realizadas por outras entidades do setor.
A 3ª Pesquisa Nacional sobre a Realidade dos Transportadores Autônomos de Cargas, da CNTA, ouviu 2.002 transportadores em todo o país. Segundo os dados apresentados no relatório da Fetrabens, 87,3% disseram esperar mais de cinco horas para carga ou descarga, enquanto 46,1% afirmaram que isso ocorre em todas as operações. Além disso, 84,7% informaram não receber o pagamento da estadia mesmo quando o tempo legal é ultrapassado.
Já a pesquisa da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transportes Terrestres (CNTTT), realizada com 1.014 motoristas profissionais contratados pelo regime da CLT, apontou que 82% das operações de carga e descarga envolvem demora superior a cinco horas. Cerca de 33% dos entrevistados também relataram que as esperas e os ambientes de carga e descarga representam ameaça à saúde psicológica.
O relatório relaciona as esperas prolongadas à redução da produtividade dos veículos, aumento dos custos operacionais, impactos na jornada de trabalho, perda de oportunidades de novos fretes e sentimento de desvalorização dos motoristas. Também aponta fatores como falta de infraestrutura adequada, baixo nível de digitalização, ausência de padronização dos processos e assimetria de poder entre transportadores e contratantes.
Fetrabens quer transformar calculadora em ferramenta oficial
A principal proposta do relatório é transformar a Calculadora de Estadia em um instrumento de política pública. A Fetrabens defende sua integração a sistemas oficiais, como o Registro Nacional de Transportadores Rodoviários de Cargas (RNTRC) e o Documento Eletrônico de Transporte (DT-e).
O relatório também sugere a possibilidade de um acordo de cooperação técnica entre a ANTT e a entidade responsável pela ferramenta.
A ideia é que, além de calcular o valor devido ao transportador, a ferramenta possa produzir uma base nacional de dados sobre os tempos de espera. Com informações padronizadas, seria possível identificar locais com atrasos recorrentes, acompanhar médias, orientar fiscalização e formular políticas públicas baseadas em evidências.
Para a Fetrabens, a oficialização também poderia reduzir conflitos entre transportadores e embarcadores, ao estabelecer um padrão para o registro e a comprovação dos horários.
O relatório considera que a ferramenta tem potencial de reduzir os tempos de espera porque a cobrança da estadia cria um incentivo econômico para que embarcadores e operadores logísticos melhorem seus processos.
Estudo é financiado pela Fetrabens
O relatório foi financiado pela própria Fetrabens, enquanto a Trucker Inovação e Empreendedorismo Social foi responsável pelo planejamento do estudo, pela elaboração metodológica e pela consolidação dos dados.
A própria entidade reconhece que a base possui limitações. Os 412 registros são casos que chegaram à Calculadora de Estadia e, portanto, não constituem uma amostra probabilística das operações realizadas no Brasil. O levantamento mede a gravidade das ocorrências registradas pela ferramenta.
Ainda assim, a Fetrabens considera que a experiência acumulada desde 2021 demonstra o potencial da ferramenta para produzir informações sobre um problema que, segundo o relatório, permanece sem solução: a distância entre o direito previsto em lei e sua efetiva aplicação nas operações de carga e descarga.
