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Viva as mulheres do transporte

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WCO fev 26

Podcast especial da Semana do Dia Internacional da Mulher reuniu a caminhoneira Iara Souza e o pesquisador Dsqui Pontes para lembrar a trajetória de Nahyra Schwanke

A TV Carga Pesada gravou um podcast especial em comemoração à Semana do Dia Internacional da Mulher (8 de março), destacando a presença feminina no transporte rodoviário e prestando homenagem a uma das caminhoneiras mais longevas do Brasil: Nahyra Schwanke.

Participou do programa a caminhoneira Iara Souza, de Uberlândia (MG), que criou o grupo GMB – Motoras do Brasil, que apoia as motoristas mulheres de todo o País. Também participou o pesquisador e especialista em transporte Dsqui Pontes, que foi amigo da dona Nahyra.

A entrevista foi conduzida pelos editores da Revista Carga Pesada, Dilene Antonucci e Nelson Bortolin.

Nahyra Schwanke morreu no dia 22 de fevereiro, aos 96 anos, na cidade de Não-Me-Toque (RS), onde viveu praticamente toda a vida. Nascida na Alemanha, chegou bebê ao Brasil em 1929, com a família, que se instalou no município gaúcho. Mãe de Salete, ela trabalhou 60 anos como caminhoneira autônoma e se tornou uma figura respeitada nas estradas.

Segundo Dsqui Pontes, que conviveu com a motorista nos últimos anos, a amizade começou durante a pesquisa para um livro sobre a história do transporte rodoviário. “Conheci a dona Nahyra em 2019, através da filha dela, a dona Salete. Era uma pessoa fantástica, com um brilho e uma luz muito grandes. A partir daí comecei a conhecer toda a história dela e virei amigo da família”, contou.

Uma vida na estrada

Nahyra iniciou a vida de caminhoneira em 1969 e seguiu na profissão por décadas. Começou a reduzir o ritmo apenas em 2019, aos 89 anos, por orientação médica devido a problemas de varizes. Mesmo assim, ainda chegou a dirigir ocasionalmente até 2022, já com 92 anos.

Antes de entrar definitivamente no transporte rodoviário, ela teve contato com veículos pesados trabalhando em um trator. “Ela começou aprendendo sozinha em um trator Hanomag. Depois vendeu o trator e deu entrada no primeiro caminhão, um Ford F-600”, explicou Dsqui.

Ao longo da carreira, Nahyra dirigiu diversos modelos de caminhão. Entre eles, dois Ford F-600, um FNM, caminhões Scania e vários Mercedes-Benz, como o LK, os modelos 112 e 113, além dos Mercedes 1933, 1944 e o Axor, que foi o último.

Segundo Dsqui, o bom relacionamento com uma concessionária da marca teve peso na preferência. “A Mercedes foi uma marca que ajudou muito ela. A concessionária Apomedil sempre deu suporte para a dona Nahyra e para a dona Salete”, relatou.

O desafio de ser mãe na estrada

 Como muitos caminhoneiros, Nahyra também enfrentou o desafio de conciliar a profissão com a vida familiar. Quando começou a viajar, a filha Salete ainda era pequena. “Ela me contou uma história que me tocou muito. A Salete segurava na carroceria do caminhão quando ela saía. Aí ela descia, dava um chocolate ou um doce para a menina, e a avó precisava tirar a criança dali para ela poder ir embora”, lembrou Dsqui.

Para a caminhoneira Iara Souza, a situação continua sendo uma realidade para muitas motoristas. “Hoje a mulher que é mãe e está na estrada precisa de uma rede de apoio. Muitas entram na profissão só depois que os filhos crescem”, afirmou.

No caso dela, a proximidade da família ajudou a conciliar trabalho e maternidade. “Tenho meus pais e a família do meu esposo por perto. Também optei por fazer trechos curtos para poder ficar mais em casa”, contou.

Iara trabalha para a Braspress e dirige atualmente um Volkswagen Constellation 19.330. O caminhão transporta latas de cerveja vazias, uma carga leve, em torno de 3,5 toneladas. “Por ser uma carga leve, não precisa de um caminhão tão tecnológico ou tão forte”, explicou.

Minoria da minoria

 Durante o podcast, Iara também destacou que a participação feminina no transporte rodoviário ainda é pequena no Brasil. “Hoje apenas cerca de 1% das habilitações da categoria E são de mulheres e cerca de 5% na categoria D. É um número muito pequeno”, disse.

Para ela, o crescimento da presença feminina depende de mais visibilidade e também de políticas públicas. “Dar visibilidade ajuda, mas precisamos de incentivo mais forte para que esse número cresça mais rápido”, afirmou.

Preconceito ainda persiste

Apesar de avanços, o preconceito contra mulheres no setor ainda existe. Iara contou que já enfrentou situações em que empresas evitam contratar motoristas mulheres. “Eu moro em Uberlândia, que é conhecida como a cidade das transportadoras. Mesmo assim, já questionei empresas que diziam contratar motoristas com ou sem experiência e nunca tinham uma mulher no quadro. Algumas até me bloquearam nas redes sociais quando fiz essa pergunta”, relatou.

 Uma história que inspira

 Pesquisador da história do transporte, Dsqui lembra que mulheres dirigindo caminhão não são algo tão recente quanto se imagina. Ele cita, por exemplo, Amédea Centini, caminhoneira e transportadora que já atuava na década de 1950, transportando pedras preciosas entre Goiás e São Paulo.

Ainda assim, segundo ele, Nahyra Schwanke se tornou uma referência única. “Ela virou um ícone da estrada. Era respeitada por todos, homens e mulheres”, afirmou.

 Legado para novas gerações

 Durante o programa, Iara Souza se emocionou ao falar da importância de mulheres pioneiras como Nahyra. “Quando a gente começa um trabalho, não imagina onde ele vai chegar. Hoje eu escuto histórias de mulheres que entraram na profissão e conquistaram independência financeira. Por isso precisamos honrar quem abriu esse caminho”, disse.

Para ela, a trajetória da caminhoneira de Não-Me-Toque mostra que a estrada também pode ser um espaço de transformação. “Se hoje ainda é difícil, imagina o que essas mulheres enfrentaram lá atrás.”

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